Cantando pr'as Paredes

Têm dias que caminhamos bem
Sobre ruas de plumas e passaros cantando.
E têm dias que caminhamos descalços
Em asfalto quente com pedras que machucam a sola do pé
E, quando passamos pelas pedras, pisamos em merda de cachorro.

Eu estou nestes dias de merda
Onde só o cansasso parece não me bastar,
E me faz da calma a raiva que não me pertence.
Onde quero me rasgar todo, gritar e chingar até quem não conheço,
Onde quero espancar até mesmo a senhora que esbarra em mim no centro da cidade,
Mesmo depois de se desculpar.

Dias como estes dos quais uma palavra minha não vale nada,
Dos quais são raros de me acontecer
E até mesmo o teatro civilizado das pessoas me faz querer desfazer.

Eu queria aprender escrever, tocar, uma ou outra maneira a mais
De canalizar tudo o que sou neste momento
E desfazer tudo isso de dentro de mim
Num instante em que não sou assim.
Num instante em que me deito só, na cama olhando para o teto
E saio voando com meus pensamentos
Enquanto Thom Yorke canta para as paredes, só, com sua voz suave.


Às vezes... Aliás, quase sempre eu me perguntava;
"Como alguém conseguia viver uma vida inteira com tamanho vazio no peito?"
Coisa que neste momento nem mais isso eu sinto.
Fico grato por isso. Por nao estar em mim uma coisa a mais
Tão incomodativo.


Mas em compensação estou aqui, inutilizavel,
Deitado enquanto o som toca e perdido em algum lugar que nao sei dizer.
Ou isto ou o vazio, de qualquer forma parece impossivel viver.
E eu sei que tenho algo a fazer e tiro uma força de algum lugar
Porque têm alguem que espera me ver e eu vou estar lá


Mesmo depois de tanta fumaça contida no peito,
Fumar bituca de filtro branco ja amarelado
E um copo puro de água batizada e rabiscos pela casa para me lembrar que estou aqui
Até o apagar da luz depois da meia noite
Enquanto eu mesmo digo a mim que preciso dormir
Ao invez de querer sair, sumir ou mesmo nao mais existir.

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