O Dedão
De novo, né? Eu avisei!
Não, não, não briga comigo mãe, tá doendo!
Eu sei que tá, olha só o tanto de sangue aí ó! Eu num tô brigano! Mas eu falei… eu falei… cêfica aí na rua correno atrás de bola que cê ia arrancar a tampa do dedão de novo. Parece que num aprende!
*
Era uma tarde comum de quarta-feira. Luiz Fernando chegou da escola, no prato, sobre a mesa, havia arroz, feijão, ovo e salada de tomate com alface. Ele sorriu, pois era sua comida preferida.
A gema do ovo ainda estava mole, para completar.
O menino largou a mochila no chão e caminhou em direção ao seu lugar na mesa, porque naquela casa era assim: cada um tinha o seu lugar marcado e, caso Luana sentasse no lugar do irmão, era briga na certa. Quem teria que aguentar depois? Com certeza dona Teresa. - Pois bem, antes que Luiz Fernando chegasse à sua cadeira, assustou com o grito da mãe
Cê pensa que vai aonde Fernando! Antes você vai guardar essa mochila véia lá no seu quarto que é lugar dela! Tá pensano que sou sua empregada pra ficá pegano suas coisa do meio da casa?
O menino, cabisbaixo, repentinamente voltou desgostoso, pegou a mochila no chão, levou até o quarto, jogou de qualquer jeito na cama e voltou para almoçar. Sentou lentamente, pegou uma colher, estourou a gema do ovo sobre o arroz, misturou tudo, pegou uma colherada e mastigou com gosto. Luana, que passou o dia no quarto jogando pelo celular, saiu do cômodo em silêncio, sentou-se em seu lugar, ao lado do irmão, e comeu, seguindo o mesmo ritual do filho de dona Teresa. A menina estava ainda chateada, pois, no sábado seguinte, seria aniversário de Luiz Fernando, mas a mãe decidiu fazer uma festa única para os dois, a fim de economizar. Porém, Luana faria 15 anos apenas no mês seguinte e queria uma festa à altura de seus 15 anos, enquanto o filho de dona Teresa faria apenas 13. De qualquer forma, como disse a esposa de seu Nelson, o que tá decidido, tá decidido e sua filha ainda não sabe nada de dinheiro, um dia ela vai entender.
Naquela tarde, a menina comeu, se arrumou e saiu para a escola. Luiz Fernando foi para o quarto estudar, pensou a mãe. Sabia que logo, logo, o menino iria pedir para sair para jogar bola na rua novamente. Era todo dia assim.
Dona Teresa, por outro lado, arrumou a cozinha, sentou no sofá com seu crochê para esperar a novela da tarde. Ela sabia que já havia assistido, mas veria quantas vezes passasse. Já o seu Nelson estava trabalhando. Desde que foi demitido da fábrica de sapatos, estava trabalhando como entregador de aplicativos. Estava dando para manter a casa e era melhor do que não entrar dinheiro nenhum, como ele sempre dizia. Porém, uma coisa era fato: seu Nelson saía às 11 da manhã para atender os pedidos de almoço e, na maioria das vezes, voltava para casa apenas após às 23 horas. Dizia que era o jeito de dar conta de pagar tudo o que precisava pagar. Mas, naquele dia as coisas seriam diferentes.
Era 15 horas.
Dona Teresa na sala assistindo e fazendo tapetes de crochê.
Um grito ecoou para dentro da casa.
Luiiiiiz!
Ah, sim! Era Adriano chamando o filho de dona Teresa para jogar bola na rua.
Em questão de segundos, o filho de seu Nelson saiu como um foguete pela porta sala, deixando apenas o eco de sua voz.
Mãe, vou jogar bola, já volto!
Dona Teresa, acostumada com a rotina do filho, não disse nada, apenas continuou concentrada em seu trabalho manual.
Algum tempo depois, dona Teresa ouve, vindo da rua, o barulho de briga das crianças. A mãe de Luiz Fernando colocou seu crochê de lado, levantou ao mesmo tempo em que calçava seus chinelos e saiu mais rápido do que o filho quando foi chamado por Adriano. Olhou do portão, verificou que Luiz Fernando não estava envolvido na briga. Era apenas André e Daniel discutindo uma falta. A esposa de seu Nelson então grita para o filho.
Olha lá, hein, Fernando! Se você apanhá aí, quando chegá aqui te dou outro supetão na orelha pra ficá ligêro.
Eu sei mãe, eu sei. Não to brigano.
Sei… sei! - E outra coisa, quero ver ninguém vindo sem tampa do dedão aqui de novo não. Se vier eu acabo de arrancar o dedo!
Nossa, mãe! Me deixa jogar!
Dona Teresa fecha a cara e volta para a sua novela.
Passou-se, então, mais alguns bons minutos e dona Teresa ouviu o choro do filho vindo da rua. Saiu imediatamente no portão para saber o que estava acontecendo. Observou o pé do filho sangrando e, novamente, gritou.
De novo, né? Eu avisei!
Não, não, não briga comigo mãe, tá doendo!
Eu sei que tá, olha só o tanto de sangue aí ó! Eu num tô brigano! Mas eu falei, num falei?… Eu falei que ficá aí na rua correno atrás de bola que cê ia arrancar a tampa do dedão de novo. Parece que num aprende!
A esposa de seu Nelson então colocou o irmão de Luana para dentro, lavou o pé do menino e colocou álcool em cima.
É pra sará rápido!
O filho de seu Nelson berrou tão alto que os vizinhos o ouviam. E chorou até cansar, com o dedão enrolado em um pedaço de pano.
Ficaram, então, a mãe de Luana e o filho de seu Nelson sentados no sofá assistindo TV. E tudo estava tranquilo.
Naquela tarde, cansado, seu Nelson decidiu parar com o trabalho às 18 horas. Voltou tranquilo do Restaurante do Néco’s, parou no bar do seu Júlio, na esquina da casa de dona Teresa, e pediu uma cerveja enquanto assistia ao jogo de sinuca dos amigos de infância. Foi naquele momento que o jogo mudou.
*
Adilson, bêbado e chapado, indignado que o parceiro de jogo, Leandro, perdeu a tacada, repentinamente socou a cara de Leandro que, sem pensar, puxou um canivete para assustar o amigo. Vendo a cena, seu Nelson tentou apartar. O pai de Luiz Fernando tentou segurar a mão de Leandro que, não se sabe como… eu aqui, até poderia tentar criar uma cena de suspense ou coisa do tipo, “enrolar” mais para desenvolver essa cena, mas a verdade é que absolutamente ninguém soube explicar como isso aconteceu. Eu, que não sou tão criativo para inventar histórias, vou direto aos fatos O marido de dona Teresa teve a garganta perfurada pelo canivete de Leandro.
*
Comentários
Postar um comentário