Iniquidade
Um som estridente atravessa o já imperceptível barulho das máquinas. Rafael, aliviado, guarda as ferramentas na gaveta de sua bancada, após ter limpado o pó de alumínio da morsa e da mesa revestida por uma borracha preta. O garoto de 19 anos caminha, confundindo-se com os outros setecentos funcionários, em direção ao relógio de ponto. Passa o cartão, caminha mais um pouco em direção ao vestiário, onde tira o jaleco azul de gola vermelha e o guarda no armário. Sai do vestiário em passos largos. Olha a hora no celular e acelera os passos para não perder o ônibus. Devia ficar, mas hoje é o primeiro dia em semanas que não ficará até tarde, fazendo hora extra. Sente-se cansado. Chega e senta-se no banco do ponto de ônibus.
Dois minutos de espera. Coloca o plug do fone no celular e começa a escutar Ponto de Equilíbrio. 4 minutos de espera, o ônibus vem. Ele entra, junto a outros treze trabalhadores de outras empresas daquela região sente-se sujo. Sujo de suor. Sujo de pó de alumínio. Sujo de óleo. Sujo de pó de madeira. Com cheiro de feijão preto, além do cansaço. Rafael segue, em pé no veículo, ouvindo sua música preferida e observando a paisagem que passa diante de seus olhos através das janelas. Vinte e dois minutos depois desce na Senador Saraiva, em frente ao antigo mercado Extra. Caminha até a rodoviária. O meia nove quatro está saindo. O garoto corre. Entra no ônibus, sentido Hortolândia. Encontra um lugar vazio, no fundo, e senta-se. Aliviado.
Reflete sobre sua vida. Reflete sobre tudo o que seus pais passaram para lhe dar o melhor. Não teve condições de estudar em escolas particulares, mas sempre recebera incentivo do Seu Juscelino para se dedicar ao que ele tinha em mãos e quando fizesse dezesseis tentar ingressar no Senai, onde faria um bom curso, depois arrumaria um bom emprego para ter um bom futuro. Hoje sabe que é verdade. Graças a Deus sua família foi bem estruturada. Hoje tem um bom emprego. Nunca passaram fome.
Ele crê: Deus sempre fora fiel à sua família. Sabe que, por ter feito Senai, terá sempre bons empregos e boas condições de se manter, diferente de muitas famílias da rua. Mas Rafael quer mais. Sabe que os playboys não fazem Senai, mas sim, viajam o mundo e quando completam dezoito anos entram em boas universidades. Sabe que os playboys não vão se preocupar em sempre ter um emprego para não passar fome, lembrando-se de alguns momentos da infância... foram meses a base de ovo e arroz. Ele entende perfeitamente que tudo pode ser diferente do outro lado do muro. Rafael quer mais, mas está cansado.
No momento a melhor opção é chegar em casa, tomar um banho, comer alguma coisa enquanto assiste ao Jornal Nacional com seus pais, antes de dormir. Ele quer férias. Uma criança pede salgadinho à outra no ônibus. Ele sorri. Lembra-se do gosto do salgadinho de quando era pequeno. Lembra-se de quando ia ao centro de Campinas com seus pais. Voltava sempre com um salgadinho daquele mesmo que a criança tem em mãos. Lembra-se que tinha medo de passar por baixo da roleta do ônibus para não pagar, mas seu pai o pegava no colo e o passava por cima. Ele sorri novamente. Seu ponto está próximo. Levanta-se. Dá sinal. Espera por um minuto e meio. O ônibus para. Rafael desce.
Cinco minutos de caminhada foram suficiente para chegar à esquina da rua em que mora. Observa de longe, há crianças apostando corrida de bicicleta na esquina de baixo. Um pouco acima, há outras crianças brincando de mamãe da rua. Continua caminhando. Em frente sua casa há um grupo de adolescentes jogando futebol. O gol feito com tijolos. Ele tira os fones de ouvido, sobe na calçada para não atrapalhar o jogo, tira as chaves do bolso e prepara-se para entrar em casa.
Salve, Rafa! Suave?
Fala aê, Éder! De boa?
Bóra jogá?
Tô suave, mano. Tô quebrado hoje. Vô ficá de boa.
Rafael entra em casa. Coloca as chaves sobre a mesa e beija o rosto de seus pais.
A benção, mãe. A bênção, pai.
Deus te abençõe, meu filho.
Caminha até o quarto, pega uma troca de roupas na gaveta da cômoda. Deixa a carteira em cima do móvel e caminha até o banheiro. Toma um banho morno. Aliviado. Sai do banho de bermuda e sem camiseta. Caminha para a cozinha. Pega uma rodela da salsicha que sua mãe está picando para pôr no macarrão, e olha pela janela. Os garotos ainda estão jogando bola. Sai. Abaixa-se na calçada para observar o movimento por alguns instantes enquanto o jantar não fica pronto. A criançada corre por todos os lados. Gritam felizes. Rafael sorri. Murilo toma dois tapas na cabeça por xingar Samuel de vacilão. Mas não há briga. Tudo é apaziguado pelo riso dos outros garotos.
Um silêncio corta o som das crianças na esquina. Todos olham. Uma viatura sobe. Crianças e jovens sobem na calçada para dar espaço. O policial marca de longe um garoto preto sentado de cócoras na calçada. A viatura para em frente a casa de Rafael. O policial sai lentamente do carro com as mãos no colete. Rafael sente um calafrio subir sua espinha.
Levanta e encosta na parede... com as mãos na cabeça, vai!
O garoto obedece. O policial revista os poucos bolsos de Rafael.
Têm droga, aí?
Não, sinhô!
Se tivé é bom falá logo pra não piorá pro teu lado.
Têm nada não, sinhô. Tô só vêno os muleque jogâno bola. Acabei de chegá do trabalho.
Cê tá achâno que nois tá de brincadêra, né, neguin?
O garoto tenta se expressar, mas não tem tempo. O policial empurra Rafael que cai olhando para o céu.
Eu num tenho nada não, moço. Nem uso nada.
Cê tá achâno que nois é burro, rapá? Com essa cara de marginal vêm falá que não tem nada?
Fernando corre. Chama seus pais, enquanto os pais de Rafael, distraídos pelo som da TV, não ouvem o som em torno do filho, na rua.
O policial coloca os pés no rosto do garoto.
Vê aí, ó. Soletra pra mim o que tá escrito no meu cuturno e vê se eu tenho cara de idiota, moleque. Já passaram a fita pra nois de um neguin passando pó aqui na rua. Agora chega aqui e você, um caso dado, vêm chamá nois de burro?
Tô chamâno ninguém de burro não, sinhô.
O garoto sente vontade de chorar, mas engole seco. Mostra-se seguro. Mostra-se forte diante do inimigo. Teresa, mãe de Fernando, sai pelo portão da casa ao lado, gritando e filmando com o celular.
Ei, ei, ei! Deixa o garoto em paz ai. O minino num feis nada não. Ele trabalhá ow!
O policial tira os pés de cima do garoto. Pensa em revidar a gritaria de Teresa, mas observa o celular por um instante. Vira-se e sai.
Vam bora, Martins. Tem nada aqui não.
Os parceiros entram na viatura que sai, lentamente. A mãe do garoto, através da janela, nota um movimento na calçada. Espanta-se. Rafael levanta-se ralado. Muitos o ajudam. Ele sente vontade de chorar, mas segura. Sua mãe seca as mãos em um pano de prato, preparando-se para sair. Muitos observam, de longe, o garoto a limpar-se. Todos observam a viatura desaparecer na esquina da rua El Salvador. Rafael entra em casa. As pessoas o observam com olhares tristes. O garoto tranca o portão. Entra pela porta e olha para os pais, prestes a sair. A lágrima escorre. Seca.
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