Redenção

Mano… ( Pausa longa) Mano… Olha pra você, mano! O que você tá fazendo? O que você fez com a 
sua vida? Olha… Não sabe mais… Não sabe o que pensar. Ficar parado em frente ao espelho, olhando 
pra própria tristeza, com esses olhos caídos, todos os dias, não muda nada. (Pausa longa) O que eu tô
 fazendo, Deus? Só fiz merda a vida toda! A vida… A vida é tão dahora, mano! A vida é tão linda e eu 
estraguei tudo com a minha juventude. Será que é possível? Fala pra mim, Deus: Será que é possível 
que eu tenha uma segunda chance? Uma oportunidade de ser moleque de novo? Olha esses meus olhos, 
Deus! Cansei… cansei. Eu quero mudar.

                                                                 *
 Pá, pá, pá!
 Três estrondos agudos quebram o silêncio  da quebrada do Santa II. Não. Não são tiros. As aceleradas 
entregam. Os moleques descem a avenida Estados Unidos. São quinze motos e vinte e dois garotos. Todos 
encostam no bar do Júlio. Sentam na mureta. Costela e Roger pegam dois litrões de cerveja. Garga e 
Rafa trás os copos. Fabiano chega com seu chevette 89 rebaixado, vidros escuros e o som tão alto que 
chega a fazer o chão tremer. Desce do carro, abre as portas e o porta-malas e aumenta o som. Cumprimenta 
a todos.

 E aí, negada! Suave? Qual é o corre de hoje?
 Vish, mano… Vai ter baile lá no Santa R., bora colar?

 Responde Diego.

 Demorô, mano. Demorô! Vamo no bonde?
 Pode pá. Vai a negada toda.
 Demorô. Xô pegá uma ceva lá, que o bagulho vai sê loco, hoje.
 Vai lá, mano...
 Ô Fer, desce lá rapidão pra pegá um pó pá nois. O do C tá dahora, mano!
 Orra, Garga! Vai lá você, mano! Tá aí suave também, mano!
Tô ca perna doendo ainda, daquele róla que tomei ontem, Fer. Rapidão cê desce lá, mano.
 Cê é foda, hein. Folgado pra caralho. Vai… vam fazê um rateio e eu colo lá. Mas vam pegá pro rolê 
da noite já, porque não vô voltá lá não. Cês viram que o Neguin descolô uma BMW? Agora o maluco 
tá mó desumilde, mano. Nem parece que cresceu cum nois. Quero ficá descendo lá e trombando ele, 
não, mano.

 Fabiano volta com um latão de cerveja na mão direita.

 Pode crê, Fer. Maluco tá mó cuzão depois que começô fazê os corre lá na banca, mano.
Mas relaxa… É moleque, mano… Moleque quebra a cara cedo. Pega aqui minha parte do rateio, ó.

  Fer desceu a rua e a conversa, no bar, continuou fluindo, sobre mulheres e rolês.

                                                                   *
 Na mesma noite, no baile funk do Santa R., o som parece tomar todo o bairro enquanto muitos dançam 
incansavelmente. Os garotos do Santa II chegam juntos. As motos acelerando e os carros estacionando. 
Fabiano desce do Chevette 89. Tênis Oakley, bermuda Oakley, camiseta e boné KondZilla, correntes 
banhadas a ouro no braço esquerdo e no pescoço. Olha a hora no IPhone. Fecha a porta do carro e, da 
porta do carona, desce Débora, sua namorada. Negra alta de cabelos encaracolados. Com salto quinze, 
preto; vestido extremamente curto, preto; com colares e pulseiras também banhados a ouro e brincos de 
argola. Juntam-se à roda dos garotos que chegaram de moto e caminham para o meio da multidão, dançando.
   Minutos depois, chega Neguin com sua BMW preta. Encosta ao lado do Chevette de Fabiano sem 
saber quem era o dono do carro. Desce do carro, também com seu tenis Oakley, calça Jeans, camiseta 
branca da Oakley, colares e pulseiras de ouro. Arruma a pistola Taurus na cintura, fecha a porta do carro 
e caminha para a multidão.
O som toma conta do ambiente. As pessoas tomam conta do lugar. As garotas dançam, se esfregam nos 
caras. Os caras dançam, se esfregam nas garotas. Todos dançam. Todos bebem. Muitos cheiram pó. Alguns, 
fumam maconha. O cheiro da erva paira sobre o ar do ambiente. Os garotos da quebrada do Santa II 
estão parados, um ao lado do outro, formando uma fileira e tomando Whisky com energético enquanto 
conversam sobre bebidas que consideram caras. Fabiano e Débora estão no centro da fileira. O pó está 
com Fernandinho, que tira do bolso e entrega três pinos para cada um dos garotos que cheiram de pouquinho, 
usando as costas da mão, e continuam bebendo, continuam tranquilos. Conversam sobre bebidas, drogas 
e sobre outros bailes, enquanto os lábios adormecem.       
  Débora puxa Fabiano pela nuca, lhe dá um beijo quente e demorado, o encara com uma mordidinha nos 
lábios, pisca com apenas um olho e sai, caminhando lentamente em direção ao banheiro.

 Já volto, safado…

 Neguin olha para trás e vê uma negra passando. Maravilhosa. Pode sentir seu cheiro de longe. Caminha 
em direção a Débora. Ela não o nota. Neguin a alcança e segura o braço direito da moça, que vira assustada.

 E aí, morena! Bora fazê essa noite valê a pena?
 Se liga, mano! Tô acompanhada já!
Orra, morena. Não esculacha, não, pô! Te dô o que tu quisé nessa noite. Bora saí de rolê? Tem uma BMW 
novinha lá fora, esperano nois.
 Sai fora, maluco. Larga meu braço. Não vô saí com você, não!
 Aí, morena… cê não tá nem ligada quem eu sô, né?
 ...
 Aí, Fabiano. Não é o Neguin lá, agarrano sua mina, mano?
 Pode crê, Fer! É ele memo. Bora colar lá, negada!
E aí, Neguin! Que que tá rolano, irmão? Tira a mão da minha mina, rapaz! Tá loco, mano?
Ow, ow, calma aí Fabiano. Não sabia que era sua mina, não, mano! Foi mal… foi mal memo, mano. Não 
sou talarico não. Soltei já. Tudo certo? Tô vazano.
 Vaza logo, então, mano!

 Débora continua olhando feio para Neguin por mais alguns segundos. Agradece ao namorado por 
aparecer e ajudá-la a livrar-se do inconveniente, e entra ao banheiro. Fabiano e os garotos voltam para 
o lugar em que estavam antes do pequeno incidente. Fabiano resmunga e os garotos concordam.

 Maluco loco, mano. Vô acertá as conta com ele depois. Já chega que o maluco tá mó botano mala só 
porque tá vendeno pó. E não sabe nem disfarçá, ces tão ligado.  Outro dia ele veio trocá ideia comigo, 
queria entrá naquele esquema do caminhão da Samsung. Sei nem como ele ficô sabeno desse rolê. 
Além de mala… tá sabeno demais já.
 Pode crê, mano!

 Responde Garga e, em seguida, toma um role de Whisky olhando para as meninas que estão dançando.
 Debora volta do banheiro, com o batom vermelho escuro retocado, tomando Vodka de canudo, para 
não borrar a maquiagem. Pega na mão direita de Fabiano e o puxa lentamente. O casal caminha de mãos 
dadas. Ela vai na frente dele, rebolando além do normal. Os garotos observam, mas continua imóveis. O 
casal sai da multidão. Entram no Chevette de Fabiano. Débora deita o banco do motorista
e começa a beijar seu namorado. Senta-se no colo dele, com uma perna de cada lado do corpo do rapaz. 
Beijam-se ardentemente. Ela abre o zíper e tira o botão da bermuda dele. Morde a orelha do namorado. 
Morde o pescoço. Fabiano sente o cheiro doce do perfume dela. Seu lábios se abrem de tesão. Débora 
segura o pau de Fabiano, abaixa-se e começa a chupá-lo lentamente, olhando para o namorado, com um 
olhar provocante. Ele sorri delicadamente.

 Safado!

 Ela volta na posição anterior e senta-se no pau dele. Fabiano sente-se entrando lentamente na boceta 
quente de Débora. Ela rebola. Rebola.

 Eu sou só sua, safado!
 Gostosa!
 Goza gostoso pra mim, goza!

 Ele sente Débora molhada. Fica ainda mais excitado. Agradece a si próprio por não ter cheirado mais 
que meio pino de cocaína. Segura forte o cabelo de Débora por trás da nuca. Ela geme e esfrega-se ainda 
mais forte. Ele geme. Ela está molhada. Ele vai gozar. Ela geme mais. Ele goza. Ela diminui o ritmo. Eles 
se beijam. Fabiano deita Débora no banco, onde antes ele estava, e começa a chupá-la. Ela acaricia os 
cabelos dele. Ela também está quase gozando. Ele continua a passar a língua no clitóris da namorada, 
sentindo o sabor do seu corpo. Ela controla no rebolado, lentamente. Geme. Geme mais. Ele continua. 
Ela goza. Ele deita na barriga de Débora e ambos relaxam. Juntos. Abraçados.

                                                                 *

 Fabiano acorda. Levanta-se lentamente. Caminha até o banheiro, escova os dentes, enxagua o rosto, seca 
e olha-se no espelho por alguns instantes. Pensa na noite passada. Lembra-se da infância, das brincadeiras 
com os caras da rua, inclusive Neguin, que ainda não era vacilão e nem se achava melhor que os outros. 
Lembra-se quando brincavam de esconde-esconde até tarde, na rua. Lembra-se das partidas de bets e como 
gostava de usar um cabo de vassoura como seu bets. Lembra-se de quando iam ao pasto soltar pipa. 
Lembra-se de quando Neguin o defendeu dos caras da rua de cima que queriam bater em Fabiano por 
causa de um pipa que ele pegou. Lembra-se de quando ele ajudou Neguin a chegar em casa, todo ralado, 
depois de cair de bicicleta. Mas as coisas mudaram e nada vai voltar a ser igual.
 Caminha até a cozinha. Passa um café, senta-se na mesa de dois lugares, a única que cabe naquele 
espaço. Toma o café lentamente. Observa a TV nova, ainda na caixa, Samsung, no chão da pequena 
sala. Olha para o relógio na parede da cozinha, em cima da pia. 11 horas.

 Dormi pra caralho!

 Alguém bate palmas na frente de casa. Fabiano se levanta, coloca o copo na pia e caminha até a 
janela da sala. Olha pela canto da cortina. Neguin. Caminha até o quarto, pega sua HK USP e coloca 
na parte de trás da cintura. Neguin bate palmas novamente e grita, fazendo um cone com as mãos em 
volta da boca.

 Fabiano!

Em sua mente há um turbilhão de pensamentos. Conhece Fabiano. Sabe que ele não é de deixar nada 
barato. Desde criança sempre fora sangue nos olhos. Torce para Fabiano lhe dar apenas uns tapas e 
ficar de boa, mas sente medo. Sabe que há uma chance muito pequena disso acontecer.
 Fabiano abre a porta da sala e sai em direção ao portão.

 Mano, foi mal cara. Vim aqui me desculpá por onte. Eu juro, eu não sabia que era sua mina, cara. 
Foi mal memo, mano. Vam dexá isso quéto, mano. De verdade. Se eu soubesse que era sua mina eu 
não chegava nem perto. Foi mal memo, mano.

 Fabiano abre o portão. Cara fechada. Nem pisca. Neguin está desesperado e não para de se desculpar. 
Há lágrimas em seus olhos. Já, nos olhos de Fabiano... há ódio. Não há ninguém na rua. Ainda bem! A 
molecada deve ter entrado para almoçar. Fabiano saca a arma rapidamente. Encosta na testa de Neguin 
que implora perdão. Fabiano não diz nada, apenas aponta e olha seriamente nos olhos do outro. O suor 
escorre na testa de Neguin quando sente o cano gelado encostar em sua pele. O dedo de Fabiano treme 
no gatilho. Neguin sabe que o colega não vai mudar de ideia. Por mais amigos que tenham sido um 
dia. Fabiano nunca foi piedoso com ninguém. O cara é capaz de matar o próprio pai, se o negócio for 
traição. Sem falar que talarico, na quebrada, morre mesmo. Ele vacilou.
 Na cabeça de Fabiano não passa absolutamente nada. O ódio é tanto que já não sabe nem o que o 
colega está falando, apenas ouve a voz de Neguin como se fosse um eco distante. Neguin sabe que 
se ele fugir, Fabiano vai atrás e vai encontrá-lo onde ele estiver, mas não se aguenta. O medo é maior. 
Não pensa. Vira-se e corre o mais rápido que pode. Fabiano dispara. Um… Dois… Três tiros nas 
costas de Neguin que cai de bruços no chão. Fabiano entra. Tranca o portão. Entra em casa, encosta a 
porta e guarda a arma. Pega o celular e liga para a polícia.

 Alô… é da polícia? Quero fazê uma denúncia… Mataram um cara aqui na frente de casa. Não sei, 
moça. Não sei. Ouvi uns tiro, assustei, olhei na janela e o maluco tava lá, caído na rua. Tá...Tá bom... 
Tá. Tchau.

                                                                   *
   Há duas semanas Fabiano não dorme. Anda cheirando três vezes mais que o habitual. No pouco 
tempo que consegue dormir tem pesadelos com Neguin. Anda pensando muito nos momentos da 
infância e em quando frequentava a igreja, com sua mãe, mas quanto mais pensa, mais cheira. Na 
última semana chegou a ficar cinquenta e duas horas sem dormir, apenas cheirando e tomando Vodka. 
Fabiano vê vultos. Sente muito medo. Medo de tudo, o tempo todo, sem saber explicar o porquê. Sente 
um vazio e uma dor incontrolável no peito. Quer chorar, mas não consegue. Decide fumar um baseado 
para cortar o efeito do pó e finalmente dormir, mas, ao contrário, cai na Bad Trip, começa a ter uma 
viagem ruim alucinando muito. Na alucinação enxerga dezenas de ninjas, com facas, pulando o portão 
de sua casa para matá-lo. Sem pensar, tranca as portas e janelas, corre até a cozinha, pega a arma de 
cima da geladeira, a garrafa de Whisky que estava sobre a mesa e volta para a sala. Senta-se no sofá 
pensando consigo mesmo que, se alguém entrar... ele estoura os miolos. Enquanto seu desespero não 
passa, Fabiano toma o Whisky no gargalo. Toma três quartos da garrafa e pega no sono sem perceber.
                         
                                                                      *

 Quinta a noite. Fabiano pega o carro. Liga. Pensa um pouco. Desliga. Resolve sair caminhando. 
Deixa o carro e sobe andando para o bar do Júlio. Chega na esquina de sua rua, ouve o culto da igreja 
Assembléia de Deus que sua mãe frequentava quando era viva. Lembra-se mais uma vez da infância. 
Das vezes que entrou ali junto com sua mãe. Sente seu peito doer. Sente algo diferente tocando seu ser. 
Pensa em entrar na igreja, mas não… “é besteira!”. Dá mais alguns passos. Ouve o grupo de louvor 
tocar. Para novamente. Volta. Fica receoso, mas entra vagarosamente. Senta-se no último banco. 
Assiste ao louvor. Sente algo tocá-lo. Não se aguenta e começa a chorar. Ajoelha-se. Pede perdão a 
Deus, por tudo que fez de mal. Tenta entender como e porquê entrou para o crime. Lembra-se que no 
começo queria apenas dar uma vida melhor à sua mãe, depois tudo saiu do controle. Viu-se roubando 
carga em caminhões e matando gente por besteira. Já nem lembra quantos matou. Pela primeira vez 
sente-se arrependido. Arrependido de verdade. Entristece. Envergonha-se. O arrependimento e a 
tristeza parecem corroer seu peito. Parece que vão matá-lo. Não se aguenta em si mesmo. Quer apenas 
UMA chance. Só UMA chance de fazer tudo diferente. Só UMA chance, ele pede a Deus. Quer poder 
voltar aos dezesseis anos. Agora ele é capaz de qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa para 
voltar à adolescência e fazer tudo diferente. Qualquer coisa para voltar e levar uma vida diferente. 
Agora, que já sabe tanto e conhece um pouco mais da vida, seria perfeito se houvesse a oportunidade 
de voltar e reviver de forma diferente. Será que é possível ter uma oportunidade tão grande? Ele não 
sabe! Sua cabeça vai explodir. Ele não consegue parar de chorar. É muito pensamento. É muita dor 
para pouco peito.
  O pastor aproxima-se. Coloca a mão direita sobre a cabeça de Fabiano e começa a orar incessantemente. 
O rapaz chora ainda mais, mas começa a sentir-se aliviado. Parece que há uma paz preenchendo seu peito. 
Sente-se em um grande e confortável abraço. O pastor distancia-se. Não fala nada. Fabiano realmente não 
queria que o pastor dissesse algo. Seca os olhos. Observa o louvor e reflete mais um pouco sobre sua vida. 
Levanta-se e sai da igreja. Para no portão. Olha para sua rua, escura, pensativo. Olha para a esquina da 
outra rua. A rua que faz cruzamento com a rua que passa em frente a igreja.  A rua que fica o bar do Júlio. 
Observa o bar lotado. Barulhento. Desce a calçada da igreja e caminha em direção à sua casa. De cabeça 
baixa.

                                                                  *

  Fabiano acorda. Levanta-se lentamente. Caminha até o banheiro, escova os dentes, enxagua o rosto, seca 
e olha-se no espelho por alguns instantes.

 Mano… ( Pausa longa) Mano… Olha pra você, mano! O que você tá fazendo? O que você fez com a 
sua vida? Olha… Não sabe mais… Não sabe o que pensar. Ficar parado em frente ao espelho, olhando 
pra própria tristeza, com esses olhos caídos, todos os dias, não muda nada. (Pausa longa) O que eu tô 
fazendo, Deus? Só fiz merda a vida toda! A vida… A vida é tão dahora, mano! A vida é tão linda e eu 
estraguei tudo com a minha juventude. Será que é possível? Fala pra mim, Deus: Será que é possível que 
eu tenha uma segunda chance? Uma oportunidade de ser moleque de novo? Olha esses meus olhos, Deus! 
Cansei… cansei. Eu quero mudar.

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