O Freguês
Hoje de manhã eu fiquei observando: Um garoto estava deitado no chão. Em um cobertor cinza. Estirado na calçada, ao lado de um filhote de cachorro. Uma moça passou, cheia de sacolas, nem notou. Caminhou. O garoto acordou. Abriu os olhos. Fechou. Um outra mulher passou com uma criança. Uma menina linda com vestido de bolinhas. Deve ter 6 anos. O garoto abriu novamente os olhos. Passou um senhor. Olhou para a criança de rua. Continuou caminhando.
O garoto sentou-se. Colocou a cabeça entre os joelhos. Levantou a cabeça e olhou para frente. Muitas pessoas passavam. Caminhavam para todos os lados. O garoto levantou. Pediu dinheiro à uma senhora que passava na calçada. Foi ignorado. Pediu dinheiro à um adolescente que passava. Ignorado. Levantou vagarosamente, como se o corpo doesse. Caminhou um pouco. O cachorro ficou. Pediu um pedaço de pão em uma padaria. Xingado. Uma moça baixa, de chinelos, shorts jeans, camiseta extremamente estampada, cabelos amarelos - nitidamente pintados - e fitinha de Nossa Senhora Aparecida no pulso direito; que entrava no estabelecimento, observou a cena. Entristeceu. O garoto sentou-se no degrau da padaria. A moça chegou ao balcão, pediu quatro pães e dois croissant de queijo, pagou e saiu. Entregou os dois salgados ao garoto que sorriu. Seus olhos brilharam. Os da moça, não do garoto. Ele a olhou. Agradeceu. Ela sorriu satisfeita e saiu. O garoto, descalço, de shorts velhos e sem camisa, comeu.
A polícia passou. Os homens da viatura encararam o garoto que estava sentado no degrau da padaria. O carro virou a esquina. Meu ônibus passou. Levantei e entrei. O garoto sentiu-se aliviado. Levantou e saiu. O dono da padaria, alto, gordo, calvo; gritou.
Vê se some hein garoto! Não quero ver você incomodando meus freguês aqui não!
Ele olhou para trás. Ignorou. Pensou que sentiria fome mais tarde. Caminhou até o semáforo. Pediu alguns trocados. Pensou em ir ao terminal cheirar pó com os outros. Quem sabe até vender e ganhar uns trocados?. Lembrou-se de sua mãe, que morrera há dois meses, dizendo à ele para nunca se envolver com essas coisas. Tentou apagar a imagem da cabeça.
Como eu sei? Não sei. Depois ouvi dizer. Ou imaginei?
O garoto juntou alguns trocados. Caminhou em direção contrária ao semáforo. Encontrou dez centavos no chão. Abaixou-se. Pegou a moeda. Colocou junto aos seus trocados. Caminhou novamente. Chegou na padaria, novamente.
Ow garoto! Eu já não te disse pra não voltar aqui?
Só quero comprá um pão, calma ai tio.
Que comprá pão o quê, moleque? E você lá tem dinheiro prá isso? Vai lavar esses pé primeiro pra depois entrar aqui.
O garoto saiu. Cabeça baixa.
Ouviu um barulho muito alto. Gritaria. Era briga. Eram outros moradores de rua brigando por causa de um cobertor. A polícia apareceu. O cachorro apareceu ao lado do garoto. Ele acariciou as orelhas do animal. Ambos observaram a briga. Um dos homens foi embora resmungando. O Outro sentou-se. A polícia saiu. O Outro levantou-se e saiu. O cachorro latiu uma vez. O garoto olhou. Um canivete no chão.
O garoto caminhou. Pegou o objeto. Voltou ao seu cobertor. Sentou-se. Abraçou o cachorro.
Coloquei os fones de ouvido. Observei da janela, a paisagem que passava. Lembrei que eu havia pensado que estava tão cansado. Sempre a mesma rotina. De manhã: ônibus e trabalho. Oito horas usinando peças de carro, trancado em uma empresa. Fim de tarde: ônibus e casa. Tomar banho, jantar, assistir ao jornal, depois à novela e dormir. Às vezes a vida parece curta demais, mas não… percebo que é o tempo. O tempo passa rápido demais. Estou ficando velho e nada acontece. O que estou fazendo do meu tempo?. Lembrei do garoto. As coisas podem piorar!
O garoto levantou. Caminhou até a padaria. O dono olhou torto. O garoto entrou no estabelecimento. Entrou por trás do balcão. Num passo rápido, encostou o canivete na barriga do dono e gritou.
E aí tio… quer dizer que eu assusto seus freguês, né? Quando eu quero comprá um pão eu não sô freguês também, não? Não sô ladrão não, tio! Fica de boa mano. Quero comê. Quero ser igual vocês aí que fica de boa, tá ligado? Cê também me deve isso. Todo mundo me deve alguma coisa e cê tá ligado, mano! Olha só meu tamanho! Me dá o pão aí e vê se aprende a tratar gente igual gente. Cê tá ligado que o bagulho é louco na rua, né?
O garoto nunca havia feito um único gesto violento na vida. Não tinha noção do que estava fazendo. Apenas sentia medo. Sentia raiva. Sentia saudades da mãe. Sentia inveja dos garotos que passavam bem vestidos, de mãos dadas com os pais. A faca começou a atravessar a roupa do padeiro. O garoto não tinha noção da força que usava. Com a outra mão, jogou um monte de moedas sobre o balcão. Um senhor, único freguês no estabelecimento, sentado em um canto escondido, observou a cena. Não sentiu medo. Não se espantou. Apenas olhou e continuou comendo seu pão de queijo e tomando café.
Chegou meu ponto. Desci. Encontrei o Paulinho. Tirei os fones de ouvido. Caminhamos juntos até a empresa. Conversamos sobre o cansaço do dia a dia. “Ainda era quarta-feira!”. Paulinho contou os meses para sua aposentadoria. Mas não eram meses ainda.
Só mais dois anos Carequinha. Só mais dois anos!
E a vida passando. E o pobre sofrendo pelo que não devia sofrer. Chegamos. Entramos na empresa. Entramos no vestiário. Colocamos o uniforme. Batemos cartão.
O padeiro colocou dois pães no saco de pão. Trêmulo, sentia o canivete na barriga. O garoto, com suas mãozinhas de dez anos trêmulas, não tinha noção da força. O senhor, no canto esquerdo da padaria, terminou seu pão de queijo. Observou a cena antes de terminar o café. O canivete começou a penetrar a pele. Um fio de sangue começou a escorrer. O garoto estava assustado. Queria deixar uma lágrima escorrer, mas segurou. O padeiro queria reagir. Queria bater no garoto. Queria tomar o canivete e chamar a polícia, mas segurou. O garoto pegou o saco de pão. Puxou forte o canivete, que rasgou a roupa do padeiro, mas não o machucou. Houve apenas um pequeno corte marcando a ponta da navalha. O garoto correu. Da porta o garoto gritou.
Vê se aprende tio: nem todo mundo da rua é ladrão, mano. Eu sô freguês também, porra!
Correu até seu cobertor. Pegou o pano do chão, cobriu o saco de pão e chamou o cachorro. Ambos correram juntos.
Na fábrica, tudo ficou “normal”. Um dia produtivo de trabalho.
No centro, tudo continuou “normal”. O garoto comeu, junto ao seu cão, sentado na grama de alguma praça, antes de voltar ao semáforo.
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