Muro da Ventura
Os garotos menores correm, descalços, brincando de pega-pega. Nós, os mais velhos, pré-adolescentes, também com os pés descalços, jogamos Bets. A rua está movimentada. Os pais, sentados nas calçadas, conversam entre si. Os tijolos postos. Eduardo passa chorando. Arrancou a pele da ponta do dedão do pé, enquanto corria. Olho meus pés. Estão pretos de sujeira. O Luís grita. Eu olho. A bolinha amarela gira em minha direção. Eu miro, com meu bets de estimação, feito com cabo de vassoura. Coloco força. Acerto. A bola voa. Eu a observo. Éder a observa.
Vai! Vai! Vai! Corre, Bruno!
Eu corro em direção à outra “casinha”.
Doze... quatorze… dezesseis… dezoito…
Essa foi longe, hein! Nós vai bater, Brunão!
vinte e dois… vinte e quatro!
Cruza! Cruza! Cruza!
Já era, mano! Já era! Batemos! Próximo!
E aí, Garga! Você e o Bruno Tão batendo toda hora mano! Troca um pouco aí. Todo mundo quer jogá. Assim nóis nem vai jogá!
Oloco, Rafa! Nóis tá ganhando. Paciência, mano!
Rafa fecha a cara. Senta novamente na calçada e fica torcendo contra nós, que estamos ganhando todas as partidas. Junin chega. Sua mãe vai comemorar o dia de São Cosme e Damião. Junin quer nos levar.
E aí, negada?! Bora colar lá na D. Mercedes? Tem uma pá de doce lá, mano! Os muleque tão jogando bola lá na frente também.
Bora lá, Junin! HAHA
Vamo todo mundo, Negada!
Demoro!
...
Realmente, há muitos doces aqui. Junin colocou doce até nos bolsos para levar embora. Eu já estou satisfeito. Comi demais! Os adultos estão entrando para o salão, vestidos de branco.
Bora jogar bola com os muleque lá na frente, Brunão!
Bora lá, Junin.
Pegamos mais alguns doces e saímos. Sentamos na calçada e o Éder gritou: tamo de próximo!. Mas acabaram com o jogo antes de entrarmos.
Vam brincá de esconde-esconde, negada!
Demoro, vamo sim Júlio!
Tiramos “dois com dois, dois com um”. Júlio vai contar. Todos correm, cada um para um lado. Eu subo no pé de goiaba para me esconder e observo. Luís vai entrar na construção abandonada. Sobe o muro que balança, mas ele não desiste. Senta-se no topo do muro. Respira. Escuta a contagem de Júlio. Vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete. Pula para dentro do terreno. Se esconde. Todos sumiram.
…
Quarenta e nove, cinquenta! Lá vou eu… quem não se escondeu não se esconde mais!
…
Um, dois, três... Du, atrás do caminhão! Já te vi, Du. Pode sair!
Eduardo sai, caminhando vagarosamente, com um olhar de decepção. Júlio sobe a rua procurando os outros. Eu desço do pé de goiaba. Corro em direção ao muro da casa de Teresinha.
Um, dois, três Bruno!
Júlio olha para trás com raiva. Continua subindo. Luís observa do esconderijo. Sai devagar, pela janela da construção. Escala novamente o muro, que balança. Júlio olha para trás, mas não vê nada. Continua subindo. Luís fica intacto durante a observação de Júlio. Quando Júlio volta a caminhar, Luís coloca a outra perna para o lado de fora do terreno. O muro balança, mais que antes. Ele fica um tempo sentado sobre o muro, então decide pular, correr e se salvar. Sente o muro mole. Por um momento sente medo. O muro parece oco. Se prepara para pular. O muro balança novamente. Luís vai pular. Sem tempo. O muro desmonta. Dois metros e meio de altura desmorona como um quebra-cabeça sendo desmanchado. Luís cai na calçada. Olha para o alto e tenta levantar e correr. Sem tempo. Um tijolo aproxima-se mais rápido que o seu pensamento. Acerta a testa. Em seguida, os outros tijolos o acertam. Todos assustam com o barulho. Olham espantados. Júlio desce a rua correndo. Todos saem dos esconderijos. Os adultos correm. Todos cercam o monte de tijolos no chão. É possível ver apenas um braço por baixo de alguns tijolos. O Pai de Daniel corre. Analisa rapidamente a situação e começa retirar os tijolos. A cabeça do garoto está partida. Literalmente! Mas ainda há vida. A respiração é ofegante. Teresinha já chamou a ambulância. D. Maria, a mãe de Luís, chega empurrando a multidão, desesperada. Chora. Waldir, pai de Daniel, não a deixa mexer no corpo do filho. Os minutos parecem eternos e a ambulância parece nunca chegar. Mas ainda há vida. As mães tiram os garotos de perto e os levam para casa, os que estão longe da mãe vão junto com as mães dos outros. D. Maria chora. Waldir a segura forte entre os braços. Richardes, o irmão de Luís, corre para pedir à Cristina, sua vizinha, que avise seu pai. A ambulância encosta. Os médicos mobilizam e levam o corpo. D. Maria é a última a entrar no carro, que sai com a sirene ligada. Ainda há vida. O clima fica pesado na rua. O pessoal da rua de cima começa a descer para saber mais do ocorrido. O pessoal da rua de baixo começa a subir para saber mais sobre o ocorrido. Waldir acende um cigarro. Sente-se mal no segundo trago e joga a droga no chão. Pisa para apagar. Decide parar de fumar e mudar de vida. É… o tempo é curto demais pra ser disperdiçado!. Aos poucos a multidão se desfaz. Ainda há vida.
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