A Surpresa

     Lá estava ele em mais uma tarde tranquila de domingo. Sentado na calçada, tomando uma cerveja sossegado e conversando com Fernando. Uma, duas, três garrafas de cerveja e, de repente, uma voz longínqua...
     - Jair? Ow, Jair! Você tá aí?
     - Tô aqui, Teresa! Do outro lado da rua.
     - Ah, meu! Pelo jeito ainda não tá sabendo né?
     - Sabendo de que mulhé?
     - Sabendo que tu é pai, homem de Deus!
     - Oxê! Mas como assim, Teresa? Que pai o que, mulhé? Tu tá é tirando com minha cara, né não?
     - Eu? tirando com sua cara? É, pelo jeito tu nem sabia que Iasmin tava grávida, né?
     - E não mesmo, oras! Eu não vejo essa mina desde o ano passado!
     Teresa o encara com um olhar de desconfiança e pensa consigo mesma que se Otávio não soubesse de sua gravidez dias antes de Bruna nascer, ou ela teria sido uma imprestável como mulher e mãe ou Otávio é que teria sido um imprestável como homem e pai. Se o segundo caso fosse a opção correta, não existiria nem sinal de “Tavin” nesse mundo mais.
     Retorna em si. Dá graças a Deus por ser uma boa mãe e mulher e por ter um bom homem ao seu lado e por sua filha ter um bom pai, então retorna para Jair.
     - Acorde, homem! Tá pensando em que ainda, que não tirou a bunda dessa calçada? Tu não vai conhecer tua filha não?
     - Eu vou sim Teresinha... Acabei de lembrar. A última vez que vi Iasmin foi naquela festa de aniversário da Maiara. Tava tudo meio escuro demais e a gente meio bêbado demais, então viemos pra casa e só lembro que acordarmos no chão da sala, no sábado.
     - Pois é, homem! Faz as contas... Tem exatamente o tempo dessa gravidez, oras!
     - E por que ela não me contou dessa gravidez,  Tereza? O que essa mulher tem na cabeça, meu?
    - Ah, isso eu já não sei né, Jair! Vai ver foi medo. Sei lá. Tu sabes como aquela lá é bicho do mato, né?
    - Verdade, verdade! Mas agora eu não sei se fico assustado por só saber nesse momento e não estar nem um pouco preparado ou se fico feliz por ter uma filha! É menina mesmo né, Teresa?
     - É sim, Jair. A enfermeira que ligou, disse que é uma menina linda!
      - Nunca pensei ser pai. Tô é ansioso demais mulhé!
     - Oxê! Então tú ta esperando o quê, homem? Vai ver logo sua filha... Agora, a mulher eu já não sei se tu gosta dela, mas cês têm que conversa e ver o que vão fazê.
     - Vix... e não é que é mesmo? Vou resolvê isso é agora! Obrigado por avisar e até mais tarde, Teresa.
      Jair levanta, toma em um único gole a cerveja que resta no copo e sai correndo para o ponto de ônibus, sem ao menos passar em casa pra trocar de roupa. Pega o primeiro ônibus com sentido ao centro.
     Ônibus lotado, com uma senhora de 62 anos sentada no banco a sua frente comendo salgadinho e fazendo barulhos estrondosamente altos ao limpar os dentes com a língua, além de mastigar de boca aberta.
     Nesse momento o pensamento de Jair é interrompido por um som estrondoso e pelas enormes ondas de saliva que saem pela boca da senhora Matilde, que além de comer fazendo todo aquele barulho, acha de puxar assunto com ele, lhe dando um banho de farelo enquanto fala:
     - Esses motoristas dirigem igual a uns loucos!
     - Verdade, senhora. Me dá licença, meu ponto é o próximo. – Responde Jair, se desculpando e indo para o fundo do ônibus pedindo licença entre  a multidão que “habita” aquele veículo.
      Passa 1, 2, 3 pontos e no quarto Jair desce. Atravessa a rua nervoso e entra no bar que tem em frente ao ponto de ônibus. Pede uma dose de Dreher e uma garrafa de cerveja, pensando consigo mesmo que precisa relaxar antes de entrar no hospital. Afinal, acabou de descobrir que é pai sem ao menos ter a oportunidade de se preparar. Sem ao menos ter os noves meses pra comprar roupinhas e presentes para sua filha, pois, a mãe da menina não lhe deu esse prazer de saber com antecedência e ter a oportunidade de montar um enxoval que estivesse ao alcance de suas condições financeiras.
     Jair senta no balcão do bar. Respira fundo para expulsar esse tipo de pensamento de sua mente e vira o primeiro gole de conhaque seguido de um gole de cerveja. Dá um tempo, toma outro gole de cerveja. Dá mais um tempo de cerca de dois minutos, enquanto observa o movimento da rua, respira fundo e toma a outra metade do conhaque seguido de mais um gole de cerveja. Respira fundo, novamente. Com o pensamento longe se levanta com calma e paga, no caixa do bar, a bebida que consumiu. Segue à pé por dois quarteirões e chega ao hospital.
     - Oi, você é a recepcionista? Estou procurando pela Iasmin, que acabou de ter uma bebê. Eu não sei o sobrenome, mas é uma moreninha e cabelos bem enrolados e negros. Ela é baixinha.
     - Eu sei quem é, mas e o senhor, quem é?
     - Eu sou o pai da bebê.
     - O senhor é o Jair?
     - Isso, isso mesmo...
     - Então, senhor Jair. A Iasmin saiu daqui a cerca de uma hora deixando esse bilhete para o senhor. Ninguém conseguiu segurá-la, pois ela já estava se sentindo bem para caminhar e saiu escondida. Quando percebemos, só foi possível ver o bilhete e notar como nos emocionamos. Preferimos não dar queixa e ficamos só esperando pra ver se o senhor apareceria pra gente observar o fim dessa história. Isso é, se for possível vermos o fim dessa história.
     Jair abriu o bilhete lentamente e, com um olhar de decepção, começou a ler de vagar em seu pouco conhecimento de leitura. O bilhete dizia:
“ Jair, sou eu, Iasmin, que escrevo esse bilhete pra você só pra dizer que ganhamos uma linda filhinha e que ela é fruto do nosso amor. Eu não sei o que você sente por mim, mas eu sou louca por você. Sou louca de amor por você desde a sexta série, mas nunca tive coragem de dizer nada. Eu não falei da gravidez porque tive medo de ser rejeitada de vez e saber que estava totalmente sozinha no mundo com um filho do homem que eu amo, mas sem o homem que eu amo. Mas agora eu pedi para que você fosse avisado do nascimento da menina porque posso viver tranquila e sem o medo de ser rejeitada, pois mesmo que você não me queira, um fruto de nosso relacionamento eu tenho junto a mim. Mas, deixo essa carta na esperança de que, se você sente algo por mim também, que você me perdoe toda essa covardia e me encontre na rua El Salvador, número 166, até o dia 13, pois no dia 14 eu saio de madrugada. Me mudarei para uma praia em Salvador, onde consegui uma casinha para viver tranquila junto ao meu amor e nossa filha... Ou apenas, junto a minha filha.”

     Então João terminou a leitura, olhou fixamente para a recepcionista do hospital e, pela primeira vez desde que era criança, de seus olhos escorreram uma lágrimas enquanto levantava a cabeça olhando fixamente para a enfermeira. Com um olhar como se estivesse pedindo desculpas por ser mais um boia fria sem condições de viver e, apesar disso, estar colocando mais uma criança no mundo, ele saiu ansioso para conhecer sua filha e disposto a dizer para Iasmin que ela sempre fora a mulher de sua vida, também. Apesar de ele sempre ter tido medo de dizer, ele está disposto a trabalhar bastante para dar melhores condições para as mulheres de sua vida viverem bem.

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