Sou Brasil
Quem disse que
meu cabelo é ruim? Meu cabelo é enrolado! Ruim é sua discriminação que não
aceita a igualdade, não aceita humanidade, não aceita a sapiência do ser parte
da humanidade. Eu faço das palavras do Emicida as minhas: “Tendo um cabelo tão
bom e cheio de cacho e movimento, cheio de armação, crespura e bom comportamento,
grito bem alto sim ‘qual foi o idiota que concluiu que meu cabelo é ruim? Qual foi
o otário equivocado que decidiu estar errado o meu cabelo enrolado? Ruim pra
quê? Ruim pra quem? Infeliz do povo que não sabe de onde vem. Pequeno é o povo que
não se ama, o povo que tem na grandeza da mistura o preto, o índio, o branco, a
farra das misturas. Pobre do povo que sem estrutura acaba crendo na loucura de
ser outro, pra ser alguém”(Emicida).
Está
tudo errado! Num país onde todos deveriam se ajudar, em um país onde os ricos
estão pisando nos menos favorecidos... há povo pisando em povo e se achando
melhor, segregando os que são ainda menos favorecidos (os pobres para ser
claro!), segregando os miseráveis, segregando negros, mulheres, índios e
mestiços. A humanidade está segregando o humano... a humanidade está se
isolando da humanidade.
Eu sou Brasil.
Brasil, não brasileiro português. Eu sou Brasil... Brasil; árvore vermelha,
nativa dessa terra brasileira. Vermelha de sangue. Sangue do povo que chora e
que apanha. Sangue de índio violado há 516 anos por europeu mercenário! Brasil
do estado em Brasa que está no peito e não apenas no nome. A brasa que arde em
chamas para lutar, para recuperar meu povo que clama. Quero meu povo
politizado, quero “meus menino” estudando, aprendendo, crescendo. Quero uma
sociedade justa, com um povo crítico, letrado, quero igualdade, quero
humanidade e não um vampiro no governo sugando até a alma dos “meus menino” e
negando-lhes a mínima humanidade.
Negro, “neguin”?
Chega! Nome próprio existe para caracterizar cada SER.
Zumbi, Dandara,
Amarildo, quantos mais? Quero meu povo vivo, quero meu povo misturando ainda mais!
Brasil é mistura, Brasil é raça
formada a partir da miscigenação e das misturas de culturas. Porém, hoje, Brasil
é raça pura! Mistura que forma uma raça forte que cansou de ser açoitada, rebaixada,
descriminada.
Da cana à
cachaça, da surra a libertação, faltaram as “condição”. Brasileiro é
Brasileiro, independente de cor de pele, igreja ou terreiro.
O sofrimento que
se arrastou com o “descobrimento”, foi/é o mesmo que formou/forma o povo forte
(heroico), o povo brasileiro. O povo que, como diria Darci Ribeiro: independente
de ser branco, negro ou índio, tudo faz parte da mistura que faz desse povo, um
povo brasileiro.
Se você é loiro
de olhos azuis, mas nasceu no Brasil e na sua árvore genealógica tem um mulato,
um índio, um mestiço ou um negro... você é brasileiro... É negro, mulato,
mestiço, índio ou negro. Você é tudo ao mesmo tempo.
Brasil é Brasil. Não o país do futebol ou do
carnaval com uma negra nua dançando com penas de pavão. Brasil é terra de
índio, d’onde minha língua pinga o tupi mesmo sem sentir a gota cair. Brasil é
a terra da mandioca, da árvore de tronco vermelho e do tucupi. Ser brasileiro é ser
misturado, tornando-se branco, índio e negro ou mestiço ou mulato.
Brasil de onde
sai o samba, o funk, o rap, o forró, o sertanejo, o pop, o rock, o MPB e tudo
se junta numa coisa só. Assim como as raças e etnias fazem parte do Brasil, a
mistura e o misturar de tudo em um só emaranhado também fazem, não apenas parte
do Brasil, mas do SER brasileiro.
Brasil é Brasil e o que fez do Brasil,
Brasil, foi a mistura do povo, da raça, da cultura, da comida, da música, da
própria mistura. Brasil só é Brasil com tudo misturado.
Brasil invadido,
explorado, estuprado. Brasil que criou o povo de cabelo liso e enrolado. De pele negra,
branca, parda e vermelha e a cultura... a cultura brasileira. Povo que não deve
aceitar exploração e a atitude de políticas que não aceitam a própria natureza do país ser
fruto da miscigenação.
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