Pensão da D. Maria
1968. Meu aniversário de 8 anos. Meu pai na churrasqueira assando carne e meu
padrinho ao lado, com o copo de cerveja na mão.
Conversam alto e riem mais alto ainda, enquanto tomam cerveja e algumas doses de
cachaça, em intervalos de tempo. Festa simples, com os amigos mais próximos, bolo
caseiro sobre a mesa, minha mãe na cozinha com algumas tias e todas ajudando com algum
serviço; preparando maionese e vinagrete para comer com pão ou terminando a decoração
enquanto as crianças, inclusive eu, correm pelo quintal com chapeuzinhos de aniversário e
o suor escorrendo pela testa.
Gritos e brigas de crianças, risadas de adultos e cheiro de churrasco no ar, misturado
com cheiro de infância que só vou sentir falta depois de adulto. Ah, infância, doce infância!
Às vezes, mas só às vezes, eu queria que o tempo não passasse.
***
Quarta feira. Acordo, vou ao banheiro, lavo o rosto e quando me olho no espelho, não
posso acreditar no que vejo. “Cadê? O que está acontecendo?”
Eu não me encontro. Vejo um velho, cheio de rugas, olhar cansado e os poucos fios de
cabelo que me restam, estão brancos.
Aquele no espelho não pode ser eu! Cadê aquele garoto? Ontem mesmo eu tinha 16 anos
e me olhava no espelho tentando arrumar o cabelo de forma que fosse agradar as meninas.
Agora não... Sou um velho a quem ninguém dá nada. Nem vi o tempo passar!
Acho que preciso de sonhos. Meu pai dizia que sem sonhos não temos razão de viver.
Ah, meu pai! Sinto saudades, mas só de pensar...
Acreditam que, quando eu era criança, meu pai foi meu herói? Se você, leitor amigo, me
conhecesse a fundo, com certeza diria: “Não... Não é possível, Américo!”. Aliás, eu mesmo
digo isso a mim.
Meu pai, quando eu era criança, era meu herói. Sempre quis que meu pai sentisse
orgulho de mim, e no íntimo, queria ser como ele. Depois que cresci, não mais. Percebi que
não era lá aquelas coisas e percebi, também, que não valia nada. Aliás, graças a ele, eu fui
como fui e sou como sou. Se meu pai fosse como eu pensei quando era criança, eu seria
diferente. O lado bom foi que aprendi a me virar sozinho.
Olha, meu amigo, agora estou com 76 anos, sentado em minha cama. Vivo em uma
pequena pensão há aproximadamente três anos e, nessa minha vida, já vivi poucas e boas
antes de vir parar nesse lugar fedendo a mijo e com cheiro de mofo. Mas fique tranquilo,
pois esse velho senhor vai contar um pouco do que foi sua vida.
Eu me lembro de ser uma criança comum, apesar de odiado pelo meu pai, mas comum.
Gostava de jogar bola na rua com o pessoal do bairro. Aquele jogo de moleque em que as
traves do gol são chinelos e sempre tem alguma briga, sabe? A gente entrava para dentro de
casa, já no fim da tarde, com o pé preto de sujeira e sem a tampa do dedão, ouvindo a mãe
gritar para ir tomar banho.
Fui dessas crianças. Dessas que brincam de esconde-esconde até tarde da noite só pra
ficar beijando a namoradinha, escondido. Dessas que não podem ver uma goiabeira
carregada que logo sobem na árvore e passam o resto da tarde comendo goiaba.
Fui assim, infância comum e adolescência também, nem um pouco atraentes.
Lembro-me bem de passar meia hora em frente ao espelho me arrumando para a escola,
além de tomar um banho de perfume. Essa foi toda a base da minha infância e adolescência.
Entre isso, tantos outros detalhes que não vêm ao caso, no momento.
A questão é: Como acabei neste lugar, sozinho, feito um velho abandonado?
A primeira lembrança de desprezo, que tenho por parte de meu pai, foi no nascimento do
meu irmão, Ricardo. Minha mãe já estava no hospital e eu vendo TV com meu pai em casa.
De repente meu pai foi para o quarto trocar de roupa e voltou dizendo que precisava ir ao
hospital e que era pra eu ficar vendo TV até ele voltar. Eu, uma criança de 6 anos, sozinho!
Estava quase anoitecendo quando ele saiu. Em seguida, escureceu. E eu, absolutamente
só, comecei a sentir medo, mas nada de meu pai chegar. Deu fome, comi bolacha e voltei
pra TV. Nada de meu pai chegar. Eu pensei em chamar a Cristina, uma vizinha e amiga de
minha mãe. Sempre fiquei com a Cristina quando minha mãe precisava sair, assim eu não
ficava sozinho. Pensei em chamá-la, mas senti medo de sair para fora de casa e encarar
aquele quintal escuro. Então fiquei ali, quietinho, e quando meu pai chegou, eu já estava
dormindo.
Sabe, leitor amigo, meu pai não queria me ter como filho. Ele engravidou minha mãe,
casou forçado por conta da gravidez e viveu uma vida frustrada. Quando eu era criança meu
pai parecia tão importante, parecia que se importava comigo e, ao meus olhos, ele era
admirável! Foi assim até os meus oito anos, mais ou menos. Depois comecei a notar o
quanto meu pai se desfazia de mim e me desprezava, principalmente quando fazia muita
diferença entre meu irmão e eu. Essa diferença foi ficando mais evidente conforme
crescíamos e uma hora eu percebi que não se tratava apenas da diferença de idade.
Eu sempre tive que me virar. “Moleque, você é homem e tem que aprender a se virar,
sozinho!” Sim, eu sempre tive que me virar, mas meu irmão, não. Meu irmão tinha tudo nas
mãos. Não é ciúmes, é a verdade. Meu irmão tirava 8 na escola e era elogiado, ia ao parque
de diversões no fim de semana e ganhava doces à vontade. Eu tirava 9 na escola e só ouvia
que eu precisava melhorar: “9 não é 10!” E quando chegava com um 10: “você não fez
mais do que sua obrigação!” Para eu ir ao parque foi preciso paciência. Esperei minha mãe
receber o pagamento da creche em que ela trabalhava para poder me levar. Meu pai nunca
quis me levar ao parque junto com meu irmão e os doces que eu queria, só fui experimentar
depois dos 15 anos, quando arrumei um trabalho de panfletagem para um supermercado da
região e então comecei a ganhar meus 15 reais por dia.
E quando meu pai chegava do bar? Eu entrava logo para o quarto e lá ficava quietinho
fingindo que estava dormindo, caso contrário, surra na certa!
É, caro leitor! Tive uma infância normal. Apesar das surras, uma infância normal. Eu
poderia ter me tornado um jovem rebelde e simplesmente colocar a culpa em meu pai, mas
não. Sempre tentei ignorar essa parte da minha vida e viver da melhor forma possível,
afinal, eu tive uma boa mãe. Alguém que me educou bem e fez o que pôde para me dar o
melhor. Alguém pela qual eu tentei fazer tudo certo.
Eu tive minha fase “adolescente rebelde” e cheguei a fugir de casa aos 17 anos, mas
acabei voltando depois de 6 meses e tudo voltou a ser quase a mesma coisa de antes.
Depois dessa minha fuga, meu pai não me bateu mais, porém, também não falou mais
comigo por cerca de um ano. Um dia eu estava em meu quarto lendo quando ouvi ele
chegar do bar. Tentou abrir o portão, fiquei ouvindo o tilintar bêbado da troca de chaves,
mas não fiz nada. Depois um longo silêncio. Me levantei, olhei da janela e, lá estava meu
pai, dormindo do lado de fora. Fui até o quintal e vi meu pai dormindo com a testa no
portão e a chave no chão. De tão bêbado, não conseguiu abrir o cadeado. Então eu o abri
com cuidado para que meu pai não caísse, encostei-o no muro, peguei a chave dele, que
estava no chão, e o levei para o quarto.
Um dia depois do acontecido meu pai voltou a falar comigo, não como se espera de um
pai, mas como se eu fosse um daqueles amigos de bar, sem sentimento ou valor familiar.
Melhor assim do que o silêncio absoluto ou as surras violentas.
Só um minuto, caro leitor, ouvi alguém bater na porta.
- Oi? Quem é?
- Sou eu, Seu Américo, a Maria!
- Oi, D. Maria, só um momento, vou pegar as chaves.
...
- Oi, D. Maria, tudo bem com a senhora?
- Tudo sim, Seu Américo. Olha, eu só vim trazer esse vinho pro senhor. Eu ganhei em
uma promoção, hoje de manhã, no mercadinho e como eu não vou tomar, vim oferecer ao
senhor.
- Ah, D. Maria! Muito obrigado, eu aceito sim. Um vinhozinho sempre é bem-vindo!
- Que bom que o senhor gostou! Mas, olha... acho que o senhor deveria sair mais desse
quarto, viu? Preciso ir porque tenho muito o que fazer, mas vê se sai um pouco e vai
passear. Até mais, Seu Américo.
- Pode deixar! Até mais, D. Maria. Obrigado pelo vinho. Tchau.
***
A irmã da Dani teve filho. Nunca pensei em ser tio, assim como nunca pensei em ser
casado. Agora, com 2 anos de casado, serei tio. Fomos à maternidade ver o bebê...
É tão pequeno! Tão delicado! Às vezes nos perguntamos: Será que é de verdade?
Ali estava ele, olhinhos fechados, com um macacão azul fazendo-o parecer ainda menor.
Entrou no quarto em um mini-berço carregado pela enfermeira e enchendo nossos olhos.
Chegou para nos encher de vida, de brilho, de cheiro de neném.
A mãe sorria e seus olhos brilhavam ao segurar aquela minúscula beleza em seus braços.
A tia parecia segurar o choro de tanta felicidade e assim que o pegou no colo, não parava
mais de rir. Aquele brilho me enchia ainda mais. Eu, o tio babão que mal sabe se expressar,
com medo de segurá-lo, medo de machucá-lo. É tão delicado!
"Mama Davi, mama!" Não queria mamar. Na verdade ele estava com dificuldades em
pegar o peito.
Viu só? Pequeno demais até para mamar, "ô coisinha!".
Aquele macacão só fazia aumentar tamanha fofura e minha vontade de apertá-lo.
Quando chegou minha vez eu o segurei com tanto cuidado, pois eu não sabia o que fazer,
mas me senti voando e, quando ele abriu os pequenos olhinhos, me olhou de tal forma que,
se pudesse teria me olhado dos pés à cabeça, mas me observou curioso e segurou meu dedo
com aquelas mãos minúsculas. Ah, meu sorriso!
A tia babona e o tio sem poder dizer nada. Eu também estava sendo um tio babão igual a
Dani e ele era nosso agora, nosso sobrinho, nosso bebê, nosso Davi! A mãe jantava, nós
brincávamos babando e fotografando até a hora da despedida. Decidimos ir embora, mesmo
querendo ficar, partimos e não mais paramos de pensar naquele bebê.
Em mim, aquela pessoinha não mais saiu da mente, junto com o cheirinho que me faz
querer vê-lo novamente, o quanto antes. Estava apaixonado. Minha pequena grande paixão!
O nosso amor, de tio e tia, que desde antes já nascia, pergunta-se: Por que tens que
crescer, criaturinha? Agora nosso assunto será você e também os cuidados que temos de ter.
***
Bom, caro leitor. Agora você já sabe como foi parte da minha infância e adolescência.
No mais, são detalhes de uma infância e uma adolescência como as de qualquer outra
pessoa. Já a entrada para a vida adulta foi mais tranquila.
Aos 22 anos eu conheci a Dani. Uma menina linda de 21 anos, cabelos pretos, longos,
liso, pele morena e baixinha. Uma baixinha linda, que me fascinou desde que nos
conhecemos, em um bar, por meio de um amigo, em uma noitada de cervejas. No início nos
tornamos bons amigos, depois ficantes, passamos a namorados e por fim, acabamos no
altar. Eu a amei, caro leitor. Eu a amei e ainda a amo com todo o meu coração.
Vivemos ótimos momentos juntos. Viajamos pelo Brasil e tivemos algumas brigas
bobas, mas vivemos como um casal jovem, muito feliz. Nada demais que valha a pena
contar ocupando espaço nessa curta vida que me resta, basta dizer que fomos felizes e nos
amamos muito. Nós nos amamos em cada pequeno segundo de nossas vidas, até mesmo
nos momentos de muitas dificuldades.
Passamos por uma fase ruim, pois meu trabalho como caminhoneiro autônomo, que leva
cargas de legumes e frutas para atacados, não estava sendo suficiente. Comecei a fazer
carretos para entrar um dinheiro a mais e a Dani tentava, tentava de todo jeito um emprego,
mas nada conseguia. Foi uma fase dura, financeiramente falando, porém, foi nessa fase que
o nosso sobrinho, Davi, nasceu. O nascimento do Davi, filho da minha cunhada Suely, foi a
melhor coisa que nos aconteceu naquela época.
Nossas refeições foram ficando cada vez mais escassas e chegamos ao ponto de
pedirmos feijão para os familiares, pois só tínhamos o arroz e mais nada. A Dani esteve ao
meu lado e passamos juntos por essa fase. Posso dizer que com aquela mulher eu sorri,
chorei, cai e levantei sem sequer imaginar que um dia acabaria aqui, sozinho. Ela foi uma
verdadeira companheira.
Um dia, em meu desespero, peguei o pagamento de um carreto que fiz e, voltando para
casa, ao passar em frente a uma casa lotérica, resolvi jogar na Mega Sena. Nunca fui de
jogar e aquela foi a primeira vez que fiz um desses jogos. Pensei comigo mesmo: "quem
sabe?"
O jogo correu em uma quarta-feira à noite, dois dias depois de eu ter jogado. A Dani não
sabia que eu havia feito o tal jogo. Naquela quarta-feira eu cheguei do trabalho, tomei um
banho e jantei. Minha amada já dormia, então lhe dei um beijo de boa noite, ela me sorriu
de olhos fechados dizendo “te amo”, eu fui até a sala e abri o computador para verificar o
resultado do jogo.
"Ganhei! Ganhei!" Eu não acreditava... Eu ganhei exatos 2 milhões e 300 mil reais.
Prêmio que recebi 45 dias depois e comprei minha Scania 124. Sempre sonhei em ser um
desses caminhoneiros de estrada que dirigem esses caminhões enormes. Eu tive que
comprar minha própria Scania com aquele prêmio e estava com a certeza de que
conseguiria bons trabalhos com aquela máquina. E consegui ótimos trabalhos!
Comprei uma casa também. Uma casa simples, mas bem familiar, pois até então,
morávamos de aluguel.
Ganhei na Mega Sena, caro leitor. Ganhei na primeira jogada e só contei a Dani no dia
seguinte, enquanto tomávamos café da manhã. Ela deu pulos de alegria, abraçou-me e me
encheu de beijos. Fizemos amor, ali mesmo na cozinha, de tão felizes que estávamos e não
pensamos em mais nada...
Não foi um dinheiro que nos enriqueceu, de fato. Afinal, não era “aqueeela fortuna!”
Porém, como eu disse, compramos nossa casa e minha Scania. Arrumei ótimos trabalhos e
nunca mais passamos por aperto financeiro.
Nossa vida de casados seguiu normalmente, assim como antes de passarmos pela
dificuldade financeira. Mas chegou o dia em que a Dani me disse estar grávida. Foi uma
felicidade misturada com uma confusão mental e falta de reação, tudo ao mesmo tempo.
Ficamos muito felizes e, apesar de não ter sido planejado, um filho é sempre muito bemvindo.
Ficamos muito felizes mesmo e montamos quarto, enxoval, esperamos aquele filho
que seria a criança mais amada do mundo. Eu daria todo o amor que não recebi de meu pai
àquela criança!
Acompanhamos todo o período de gestação da melhor forma possível, e o pré-natal foi
um período bem tranquilo, o problema veio depois.
Na hora do parto, complicações. Eu estava no quarto acompanhando tudo e o bebê não
nascia. O médico disse que seria necessário fazer um cesária, mas a Dani começou a passar
mal neste momento. Tiraram-me do quarto sem explicar nada. Sentei no chão do corredor
em frente à porta do quarto, desesperado, ansioso pelo fim daquela situação. Enfermeiros
passaram algumas vezes, entrando e saindo do quarto, tudo muito rápido. De repente um pé
se aproximou, levantei-me desesperado para ouvir a notícia...
Caro leitor… Eu não gosto nem de me lembrar daquele dia, mas preciso contar. A
complicação na hora do parto se deu por conta da alta pressão arterial e da diabetes da
Dani. Não teve salvação, nem pra ela, nem para o meu filho, que só conheci já morto.
Daquele dia em diante eu não tive mais forças para viver, caro leitor. Fiquei semanas
sem trabalhar, só tomando quantidades absurdas de whisky e minha cunhada Suely acabou
tomando conta de tudo.
Voltei ao trabalho quase dois meses depois. Minha vida estava totalmente cinza, sem
graça e, confesso, eu nunca mais fui o mesmo.
Algumas outras surpresas eu tive em minha vida, afinal, essa é a dinâmica da vida! Uma
dessas surpresas foi na Paraíba, em uma das minhas viagens a trabalho.
Fui lá para entregar uma carga. Eram 22 horas quando cheguei naquele Estado. Estava
com muita fome e mesmo sem querer parar, decidi fazê-lo para comer em um restaurante
de beira da estrada, um pouco antes de chegar na PB 151, entre Picuí e Carnaúba. Eu já
conhecia aquela estrada, semi-asfaltada, onde não se vê nada além de galhos com um pouco
de verde em volta. Achei melhor parar ali, antes de penetrar naquela estrada com tamanha
fome que sentia.
Comi uma quentinha de feijão tropeiro com arroz e um bife delicioso. Tomei uma dose
de cachaça e dali saí. Entrei em minha Scania 124, liguei o rádio e ouvi, muito rápido, a
porta do passageiro abrir e fechar. De repente, ao meu lado, uma garota. Não devia ter mais
do que 15 anos. Foi logo me dizendo:
- Moço, por favor, me leva daqui! Eu te chupo e até te dô de graça, só me leva daqui,
por favor!
Eu a olhei espantado, tentando entender. Liguei o caminhão e saí.
A garota, com expressão de alívio, começou a me alisar as pernas e eu disse que não.
Não queria que ela fizesse nada, além explicar o acontecido. Então ela começou:
- Moço, em casa todos tavam com fome, eu sô a única minina. Conheci uma amiga que
se vendeu pra ganhá dinhero. Eu vim e fiz o mesmo. Ganhei 100 reais hoje chupando um
senhor e isso já deu pra mim. Com esse dinhero já dá pra gente comê por um bom tempo
em casa. Sou virgem, moço. Nunca fiz isso e só chupei esse senhor hoje. Ele me pagou e
quando estava saindo, ele virou e disse: “quero discabaçar você, minina linda!” Eu fiquei
com medo, saí correndo. O dono do quarto veio atrás de mim com uma arma e é dele que tô
fugindo. Ele quer me matar, pois não fiz o que o cliente quiria. Moço, nós precisamo de
dinhero em casa, mas eu só quero perdê minha virgindade com quem eu gosto e não assim,
por dinhero. Eu entrei nessa sem sabê o que estava fazendo e agora o Seu Marcio quer que
eu transe de qualquer jeito ou ele me mata!
...
Eu fiquei estagnado. Abismado com a história que ela me contou. Dei-lhe uma nota de
50 reais, a única que tinha no bolso. Perguntei onde ela queria ir e disse que não queria
nada em troca. Disse que era casado e que só estava trabalhando. Ela me sorriu, um sorriso
tão bonito! Mostrou-me sua casa e me apresentou a sua família. Disse que o Marcio,
cafetão, não sabia onde ela morava. Deixou que eu dormisse em seu quarto enquanto
dormia com sua mãe e, no dia seguinte, eu peguei a estrada. Continuei minha caminhada,
por uma estrada de vazios, com meu peito entristecido pela história de Lidiane, que
recorreu à prostituição para ganhar algum tostão para sua família comer. Fui fazer a entrega
de minha carga tendo vivido mais uma experiência... mais uma madrugada.
É, caro leitor... Eu disse à Lidiane que sou casado, pois, apesar de muitos dizerem que
eu deveria conhecer outras pessoas e até a minha própria cunhada insistir para eu conhecer
outras pessoas... Para mim, eu sempre serei casado com a Dani e ninguém vai tomar o lugar
dela. Se bem que, agora que já estou velho, creio que ninguém vai querer nada comigo. Boa
parte desses meus últimos 30 anos de solidão foram na estrada, conhecendo lugares
diferentes e tomando cachaça para amenizar a dor que sinto no peito. Aposentei-me. Viajei
mais alguns meses para conhecer os lugares onde nunca havia passado e, em uma dessas
minhas viagens, conheci a pensão em que hoje estou. Mofo e cheiro de mijo, mas a D.
Maria é muito atenciosa comigo. Identifiquei-me com o ambiente daqui. Mofo e cheiro de
mijo refletem meu interior.
Vendi a Scania, vendi minha casa, tenho algum dinheiro guardado para eu pagar as
diárias da pensão, minhas compras e minha bebida...
Ai! Só um minuto!
- D. Maria! ... D. Mariaa! Ai! Ô D. Maria!
- Oi Seu Américo. Que acontece?
- Dor no peito. Me ajuda Don.. ai!
- Lídia! Ô Lídia, liga pra ambulância, rápido, por favor!
...
- Aguenta aí, Seu Américo... Acorda, Seu Américo. A ambulância já vem, abre esses
olhos, moço! Fala comigo! Seu Américo! Ô Seu Américo, tu não vai morrer, não né? Tu és
forte demais pra isso, acorda! Acorda, Seu Américo! Aaah, ô Lídia! Cadê essa ambulância,
mulhé? O home tá morrendo aqui!
***
É meu aniversário de 8 anos. Foi a melhor lembrança que restou da minha infância. A
lembrança boa, que vai me acompanhar por toda a vida. A lembrança e essa fotografia que
meu padrinho tirou naquele dia. Eu, o Luís Fernando e o Henrique, sentados na borda do
jardim de minha mãe, com os chapeuzinhos de aniversário na cabeça, bermudinha, tênis do
Seninha e minha camisetinha do Michey Mouse. Essa mesma fotografia que me acompanha
sempre, na cabeceira das camas de todos os lugares por onde eu passo, bem ao lado da
fotografia que a Dani e eu tiramos na praia de Peruíbe, em São Paulo.
padrinho ao lado, com o copo de cerveja na mão.
Conversam alto e riem mais alto ainda, enquanto tomam cerveja e algumas doses de
cachaça, em intervalos de tempo. Festa simples, com os amigos mais próximos, bolo
caseiro sobre a mesa, minha mãe na cozinha com algumas tias e todas ajudando com algum
serviço; preparando maionese e vinagrete para comer com pão ou terminando a decoração
enquanto as crianças, inclusive eu, correm pelo quintal com chapeuzinhos de aniversário e
o suor escorrendo pela testa.
Gritos e brigas de crianças, risadas de adultos e cheiro de churrasco no ar, misturado
com cheiro de infância que só vou sentir falta depois de adulto. Ah, infância, doce infância!
Às vezes, mas só às vezes, eu queria que o tempo não passasse.
***
Quarta feira. Acordo, vou ao banheiro, lavo o rosto e quando me olho no espelho, não
posso acreditar no que vejo. “Cadê? O que está acontecendo?”
Eu não me encontro. Vejo um velho, cheio de rugas, olhar cansado e os poucos fios de
cabelo que me restam, estão brancos.
Aquele no espelho não pode ser eu! Cadê aquele garoto? Ontem mesmo eu tinha 16 anos
e me olhava no espelho tentando arrumar o cabelo de forma que fosse agradar as meninas.
Agora não... Sou um velho a quem ninguém dá nada. Nem vi o tempo passar!
Acho que preciso de sonhos. Meu pai dizia que sem sonhos não temos razão de viver.
Ah, meu pai! Sinto saudades, mas só de pensar...
Acreditam que, quando eu era criança, meu pai foi meu herói? Se você, leitor amigo, me
conhecesse a fundo, com certeza diria: “Não... Não é possível, Américo!”. Aliás, eu mesmo
digo isso a mim.
Meu pai, quando eu era criança, era meu herói. Sempre quis que meu pai sentisse
orgulho de mim, e no íntimo, queria ser como ele. Depois que cresci, não mais. Percebi que
não era lá aquelas coisas e percebi, também, que não valia nada. Aliás, graças a ele, eu fui
como fui e sou como sou. Se meu pai fosse como eu pensei quando era criança, eu seria
diferente. O lado bom foi que aprendi a me virar sozinho.
Olha, meu amigo, agora estou com 76 anos, sentado em minha cama. Vivo em uma
pequena pensão há aproximadamente três anos e, nessa minha vida, já vivi poucas e boas
antes de vir parar nesse lugar fedendo a mijo e com cheiro de mofo. Mas fique tranquilo,
pois esse velho senhor vai contar um pouco do que foi sua vida.
Eu me lembro de ser uma criança comum, apesar de odiado pelo meu pai, mas comum.
Gostava de jogar bola na rua com o pessoal do bairro. Aquele jogo de moleque em que as
traves do gol são chinelos e sempre tem alguma briga, sabe? A gente entrava para dentro de
casa, já no fim da tarde, com o pé preto de sujeira e sem a tampa do dedão, ouvindo a mãe
gritar para ir tomar banho.
Fui dessas crianças. Dessas que brincam de esconde-esconde até tarde da noite só pra
ficar beijando a namoradinha, escondido. Dessas que não podem ver uma goiabeira
carregada que logo sobem na árvore e passam o resto da tarde comendo goiaba.
Fui assim, infância comum e adolescência também, nem um pouco atraentes.
Lembro-me bem de passar meia hora em frente ao espelho me arrumando para a escola,
além de tomar um banho de perfume. Essa foi toda a base da minha infância e adolescência.
Entre isso, tantos outros detalhes que não vêm ao caso, no momento.
A questão é: Como acabei neste lugar, sozinho, feito um velho abandonado?
A primeira lembrança de desprezo, que tenho por parte de meu pai, foi no nascimento do
meu irmão, Ricardo. Minha mãe já estava no hospital e eu vendo TV com meu pai em casa.
De repente meu pai foi para o quarto trocar de roupa e voltou dizendo que precisava ir ao
hospital e que era pra eu ficar vendo TV até ele voltar. Eu, uma criança de 6 anos, sozinho!
Estava quase anoitecendo quando ele saiu. Em seguida, escureceu. E eu, absolutamente
só, comecei a sentir medo, mas nada de meu pai chegar. Deu fome, comi bolacha e voltei
pra TV. Nada de meu pai chegar. Eu pensei em chamar a Cristina, uma vizinha e amiga de
minha mãe. Sempre fiquei com a Cristina quando minha mãe precisava sair, assim eu não
ficava sozinho. Pensei em chamá-la, mas senti medo de sair para fora de casa e encarar
aquele quintal escuro. Então fiquei ali, quietinho, e quando meu pai chegou, eu já estava
dormindo.
Sabe, leitor amigo, meu pai não queria me ter como filho. Ele engravidou minha mãe,
casou forçado por conta da gravidez e viveu uma vida frustrada. Quando eu era criança meu
pai parecia tão importante, parecia que se importava comigo e, ao meus olhos, ele era
admirável! Foi assim até os meus oito anos, mais ou menos. Depois comecei a notar o
quanto meu pai se desfazia de mim e me desprezava, principalmente quando fazia muita
diferença entre meu irmão e eu. Essa diferença foi ficando mais evidente conforme
crescíamos e uma hora eu percebi que não se tratava apenas da diferença de idade.
Eu sempre tive que me virar. “Moleque, você é homem e tem que aprender a se virar,
sozinho!” Sim, eu sempre tive que me virar, mas meu irmão, não. Meu irmão tinha tudo nas
mãos. Não é ciúmes, é a verdade. Meu irmão tirava 8 na escola e era elogiado, ia ao parque
de diversões no fim de semana e ganhava doces à vontade. Eu tirava 9 na escola e só ouvia
que eu precisava melhorar: “9 não é 10!” E quando chegava com um 10: “você não fez
mais do que sua obrigação!” Para eu ir ao parque foi preciso paciência. Esperei minha mãe
receber o pagamento da creche em que ela trabalhava para poder me levar. Meu pai nunca
quis me levar ao parque junto com meu irmão e os doces que eu queria, só fui experimentar
depois dos 15 anos, quando arrumei um trabalho de panfletagem para um supermercado da
região e então comecei a ganhar meus 15 reais por dia.
E quando meu pai chegava do bar? Eu entrava logo para o quarto e lá ficava quietinho
fingindo que estava dormindo, caso contrário, surra na certa!
É, caro leitor! Tive uma infância normal. Apesar das surras, uma infância normal. Eu
poderia ter me tornado um jovem rebelde e simplesmente colocar a culpa em meu pai, mas
não. Sempre tentei ignorar essa parte da minha vida e viver da melhor forma possível,
afinal, eu tive uma boa mãe. Alguém que me educou bem e fez o que pôde para me dar o
melhor. Alguém pela qual eu tentei fazer tudo certo.
Eu tive minha fase “adolescente rebelde” e cheguei a fugir de casa aos 17 anos, mas
acabei voltando depois de 6 meses e tudo voltou a ser quase a mesma coisa de antes.
Depois dessa minha fuga, meu pai não me bateu mais, porém, também não falou mais
comigo por cerca de um ano. Um dia eu estava em meu quarto lendo quando ouvi ele
chegar do bar. Tentou abrir o portão, fiquei ouvindo o tilintar bêbado da troca de chaves,
mas não fiz nada. Depois um longo silêncio. Me levantei, olhei da janela e, lá estava meu
pai, dormindo do lado de fora. Fui até o quintal e vi meu pai dormindo com a testa no
portão e a chave no chão. De tão bêbado, não conseguiu abrir o cadeado. Então eu o abri
com cuidado para que meu pai não caísse, encostei-o no muro, peguei a chave dele, que
estava no chão, e o levei para o quarto.
Um dia depois do acontecido meu pai voltou a falar comigo, não como se espera de um
pai, mas como se eu fosse um daqueles amigos de bar, sem sentimento ou valor familiar.
Melhor assim do que o silêncio absoluto ou as surras violentas.
Só um minuto, caro leitor, ouvi alguém bater na porta.
- Oi? Quem é?
- Sou eu, Seu Américo, a Maria!
- Oi, D. Maria, só um momento, vou pegar as chaves.
...
- Oi, D. Maria, tudo bem com a senhora?
- Tudo sim, Seu Américo. Olha, eu só vim trazer esse vinho pro senhor. Eu ganhei em
uma promoção, hoje de manhã, no mercadinho e como eu não vou tomar, vim oferecer ao
senhor.
- Ah, D. Maria! Muito obrigado, eu aceito sim. Um vinhozinho sempre é bem-vindo!
- Que bom que o senhor gostou! Mas, olha... acho que o senhor deveria sair mais desse
quarto, viu? Preciso ir porque tenho muito o que fazer, mas vê se sai um pouco e vai
passear. Até mais, Seu Américo.
- Pode deixar! Até mais, D. Maria. Obrigado pelo vinho. Tchau.
***
A irmã da Dani teve filho. Nunca pensei em ser tio, assim como nunca pensei em ser
casado. Agora, com 2 anos de casado, serei tio. Fomos à maternidade ver o bebê...
É tão pequeno! Tão delicado! Às vezes nos perguntamos: Será que é de verdade?
Ali estava ele, olhinhos fechados, com um macacão azul fazendo-o parecer ainda menor.
Entrou no quarto em um mini-berço carregado pela enfermeira e enchendo nossos olhos.
Chegou para nos encher de vida, de brilho, de cheiro de neném.
A mãe sorria e seus olhos brilhavam ao segurar aquela minúscula beleza em seus braços.
A tia parecia segurar o choro de tanta felicidade e assim que o pegou no colo, não parava
mais de rir. Aquele brilho me enchia ainda mais. Eu, o tio babão que mal sabe se expressar,
com medo de segurá-lo, medo de machucá-lo. É tão delicado!
"Mama Davi, mama!" Não queria mamar. Na verdade ele estava com dificuldades em
pegar o peito.
Viu só? Pequeno demais até para mamar, "ô coisinha!".
Aquele macacão só fazia aumentar tamanha fofura e minha vontade de apertá-lo.
Quando chegou minha vez eu o segurei com tanto cuidado, pois eu não sabia o que fazer,
mas me senti voando e, quando ele abriu os pequenos olhinhos, me olhou de tal forma que,
se pudesse teria me olhado dos pés à cabeça, mas me observou curioso e segurou meu dedo
com aquelas mãos minúsculas. Ah, meu sorriso!
A tia babona e o tio sem poder dizer nada. Eu também estava sendo um tio babão igual a
Dani e ele era nosso agora, nosso sobrinho, nosso bebê, nosso Davi! A mãe jantava, nós
brincávamos babando e fotografando até a hora da despedida. Decidimos ir embora, mesmo
querendo ficar, partimos e não mais paramos de pensar naquele bebê.
Em mim, aquela pessoinha não mais saiu da mente, junto com o cheirinho que me faz
querer vê-lo novamente, o quanto antes. Estava apaixonado. Minha pequena grande paixão!
O nosso amor, de tio e tia, que desde antes já nascia, pergunta-se: Por que tens que
crescer, criaturinha? Agora nosso assunto será você e também os cuidados que temos de ter.
***
Bom, caro leitor. Agora você já sabe como foi parte da minha infância e adolescência.
No mais, são detalhes de uma infância e uma adolescência como as de qualquer outra
pessoa. Já a entrada para a vida adulta foi mais tranquila.
Aos 22 anos eu conheci a Dani. Uma menina linda de 21 anos, cabelos pretos, longos,
liso, pele morena e baixinha. Uma baixinha linda, que me fascinou desde que nos
conhecemos, em um bar, por meio de um amigo, em uma noitada de cervejas. No início nos
tornamos bons amigos, depois ficantes, passamos a namorados e por fim, acabamos no
altar. Eu a amei, caro leitor. Eu a amei e ainda a amo com todo o meu coração.
Vivemos ótimos momentos juntos. Viajamos pelo Brasil e tivemos algumas brigas
bobas, mas vivemos como um casal jovem, muito feliz. Nada demais que valha a pena
contar ocupando espaço nessa curta vida que me resta, basta dizer que fomos felizes e nos
amamos muito. Nós nos amamos em cada pequeno segundo de nossas vidas, até mesmo
nos momentos de muitas dificuldades.
Passamos por uma fase ruim, pois meu trabalho como caminhoneiro autônomo, que leva
cargas de legumes e frutas para atacados, não estava sendo suficiente. Comecei a fazer
carretos para entrar um dinheiro a mais e a Dani tentava, tentava de todo jeito um emprego,
mas nada conseguia. Foi uma fase dura, financeiramente falando, porém, foi nessa fase que
o nosso sobrinho, Davi, nasceu. O nascimento do Davi, filho da minha cunhada Suely, foi a
melhor coisa que nos aconteceu naquela época.
Nossas refeições foram ficando cada vez mais escassas e chegamos ao ponto de
pedirmos feijão para os familiares, pois só tínhamos o arroz e mais nada. A Dani esteve ao
meu lado e passamos juntos por essa fase. Posso dizer que com aquela mulher eu sorri,
chorei, cai e levantei sem sequer imaginar que um dia acabaria aqui, sozinho. Ela foi uma
verdadeira companheira.
Um dia, em meu desespero, peguei o pagamento de um carreto que fiz e, voltando para
casa, ao passar em frente a uma casa lotérica, resolvi jogar na Mega Sena. Nunca fui de
jogar e aquela foi a primeira vez que fiz um desses jogos. Pensei comigo mesmo: "quem
sabe?"
O jogo correu em uma quarta-feira à noite, dois dias depois de eu ter jogado. A Dani não
sabia que eu havia feito o tal jogo. Naquela quarta-feira eu cheguei do trabalho, tomei um
banho e jantei. Minha amada já dormia, então lhe dei um beijo de boa noite, ela me sorriu
de olhos fechados dizendo “te amo”, eu fui até a sala e abri o computador para verificar o
resultado do jogo.
"Ganhei! Ganhei!" Eu não acreditava... Eu ganhei exatos 2 milhões e 300 mil reais.
Prêmio que recebi 45 dias depois e comprei minha Scania 124. Sempre sonhei em ser um
desses caminhoneiros de estrada que dirigem esses caminhões enormes. Eu tive que
comprar minha própria Scania com aquele prêmio e estava com a certeza de que
conseguiria bons trabalhos com aquela máquina. E consegui ótimos trabalhos!
Comprei uma casa também. Uma casa simples, mas bem familiar, pois até então,
morávamos de aluguel.
Ganhei na Mega Sena, caro leitor. Ganhei na primeira jogada e só contei a Dani no dia
seguinte, enquanto tomávamos café da manhã. Ela deu pulos de alegria, abraçou-me e me
encheu de beijos. Fizemos amor, ali mesmo na cozinha, de tão felizes que estávamos e não
pensamos em mais nada...
Não foi um dinheiro que nos enriqueceu, de fato. Afinal, não era “aqueeela fortuna!”
Porém, como eu disse, compramos nossa casa e minha Scania. Arrumei ótimos trabalhos e
nunca mais passamos por aperto financeiro.
Nossa vida de casados seguiu normalmente, assim como antes de passarmos pela
dificuldade financeira. Mas chegou o dia em que a Dani me disse estar grávida. Foi uma
felicidade misturada com uma confusão mental e falta de reação, tudo ao mesmo tempo.
Ficamos muito felizes e, apesar de não ter sido planejado, um filho é sempre muito bemvindo.
Ficamos muito felizes mesmo e montamos quarto, enxoval, esperamos aquele filho
que seria a criança mais amada do mundo. Eu daria todo o amor que não recebi de meu pai
àquela criança!
Acompanhamos todo o período de gestação da melhor forma possível, e o pré-natal foi
um período bem tranquilo, o problema veio depois.
Na hora do parto, complicações. Eu estava no quarto acompanhando tudo e o bebê não
nascia. O médico disse que seria necessário fazer um cesária, mas a Dani começou a passar
mal neste momento. Tiraram-me do quarto sem explicar nada. Sentei no chão do corredor
em frente à porta do quarto, desesperado, ansioso pelo fim daquela situação. Enfermeiros
passaram algumas vezes, entrando e saindo do quarto, tudo muito rápido. De repente um pé
se aproximou, levantei-me desesperado para ouvir a notícia...
Caro leitor… Eu não gosto nem de me lembrar daquele dia, mas preciso contar. A
complicação na hora do parto se deu por conta da alta pressão arterial e da diabetes da
Dani. Não teve salvação, nem pra ela, nem para o meu filho, que só conheci já morto.
Daquele dia em diante eu não tive mais forças para viver, caro leitor. Fiquei semanas
sem trabalhar, só tomando quantidades absurdas de whisky e minha cunhada Suely acabou
tomando conta de tudo.
Voltei ao trabalho quase dois meses depois. Minha vida estava totalmente cinza, sem
graça e, confesso, eu nunca mais fui o mesmo.
Algumas outras surpresas eu tive em minha vida, afinal, essa é a dinâmica da vida! Uma
dessas surpresas foi na Paraíba, em uma das minhas viagens a trabalho.
Fui lá para entregar uma carga. Eram 22 horas quando cheguei naquele Estado. Estava
com muita fome e mesmo sem querer parar, decidi fazê-lo para comer em um restaurante
de beira da estrada, um pouco antes de chegar na PB 151, entre Picuí e Carnaúba. Eu já
conhecia aquela estrada, semi-asfaltada, onde não se vê nada além de galhos com um pouco
de verde em volta. Achei melhor parar ali, antes de penetrar naquela estrada com tamanha
fome que sentia.
Comi uma quentinha de feijão tropeiro com arroz e um bife delicioso. Tomei uma dose
de cachaça e dali saí. Entrei em minha Scania 124, liguei o rádio e ouvi, muito rápido, a
porta do passageiro abrir e fechar. De repente, ao meu lado, uma garota. Não devia ter mais
do que 15 anos. Foi logo me dizendo:
- Moço, por favor, me leva daqui! Eu te chupo e até te dô de graça, só me leva daqui,
por favor!
Eu a olhei espantado, tentando entender. Liguei o caminhão e saí.
A garota, com expressão de alívio, começou a me alisar as pernas e eu disse que não.
Não queria que ela fizesse nada, além explicar o acontecido. Então ela começou:
- Moço, em casa todos tavam com fome, eu sô a única minina. Conheci uma amiga que
se vendeu pra ganhá dinhero. Eu vim e fiz o mesmo. Ganhei 100 reais hoje chupando um
senhor e isso já deu pra mim. Com esse dinhero já dá pra gente comê por um bom tempo
em casa. Sou virgem, moço. Nunca fiz isso e só chupei esse senhor hoje. Ele me pagou e
quando estava saindo, ele virou e disse: “quero discabaçar você, minina linda!” Eu fiquei
com medo, saí correndo. O dono do quarto veio atrás de mim com uma arma e é dele que tô
fugindo. Ele quer me matar, pois não fiz o que o cliente quiria. Moço, nós precisamo de
dinhero em casa, mas eu só quero perdê minha virgindade com quem eu gosto e não assim,
por dinhero. Eu entrei nessa sem sabê o que estava fazendo e agora o Seu Marcio quer que
eu transe de qualquer jeito ou ele me mata!
...
Eu fiquei estagnado. Abismado com a história que ela me contou. Dei-lhe uma nota de
50 reais, a única que tinha no bolso. Perguntei onde ela queria ir e disse que não queria
nada em troca. Disse que era casado e que só estava trabalhando. Ela me sorriu, um sorriso
tão bonito! Mostrou-me sua casa e me apresentou a sua família. Disse que o Marcio,
cafetão, não sabia onde ela morava. Deixou que eu dormisse em seu quarto enquanto
dormia com sua mãe e, no dia seguinte, eu peguei a estrada. Continuei minha caminhada,
por uma estrada de vazios, com meu peito entristecido pela história de Lidiane, que
recorreu à prostituição para ganhar algum tostão para sua família comer. Fui fazer a entrega
de minha carga tendo vivido mais uma experiência... mais uma madrugada.
É, caro leitor... Eu disse à Lidiane que sou casado, pois, apesar de muitos dizerem que
eu deveria conhecer outras pessoas e até a minha própria cunhada insistir para eu conhecer
outras pessoas... Para mim, eu sempre serei casado com a Dani e ninguém vai tomar o lugar
dela. Se bem que, agora que já estou velho, creio que ninguém vai querer nada comigo. Boa
parte desses meus últimos 30 anos de solidão foram na estrada, conhecendo lugares
diferentes e tomando cachaça para amenizar a dor que sinto no peito. Aposentei-me. Viajei
mais alguns meses para conhecer os lugares onde nunca havia passado e, em uma dessas
minhas viagens, conheci a pensão em que hoje estou. Mofo e cheiro de mijo, mas a D.
Maria é muito atenciosa comigo. Identifiquei-me com o ambiente daqui. Mofo e cheiro de
mijo refletem meu interior.
Vendi a Scania, vendi minha casa, tenho algum dinheiro guardado para eu pagar as
diárias da pensão, minhas compras e minha bebida...
Ai! Só um minuto!
- D. Maria! ... D. Mariaa! Ai! Ô D. Maria!
- Oi Seu Américo. Que acontece?
- Dor no peito. Me ajuda Don.. ai!
- Lídia! Ô Lídia, liga pra ambulância, rápido, por favor!
...
- Aguenta aí, Seu Américo... Acorda, Seu Américo. A ambulância já vem, abre esses
olhos, moço! Fala comigo! Seu Américo! Ô Seu Américo, tu não vai morrer, não né? Tu és
forte demais pra isso, acorda! Acorda, Seu Américo! Aaah, ô Lídia! Cadê essa ambulância,
mulhé? O home tá morrendo aqui!
***
É meu aniversário de 8 anos. Foi a melhor lembrança que restou da minha infância. A
lembrança boa, que vai me acompanhar por toda a vida. A lembrança e essa fotografia que
meu padrinho tirou naquele dia. Eu, o Luís Fernando e o Henrique, sentados na borda do
jardim de minha mãe, com os chapeuzinhos de aniversário na cabeça, bermudinha, tênis do
Seninha e minha camisetinha do Michey Mouse. Essa mesma fotografia que me acompanha
sempre, na cabeceira das camas de todos os lugares por onde eu passo, bem ao lado da
fotografia que a Dani e eu tiramos na praia de Peruíbe, em São Paulo.
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