Seu Erivaldo

     Caminhava pela Rua Regente Feijó com uma garrafa d’água de 500 ml, na mão, cheia de Velho Barreiro.  Meio sujo... meio rasgado... Não cambaleava, mas andava desengonçado com seu 1,82 de altura e aquela pele morena, queimada do sol, da rua. Levava uma tristeza tão grande no olhar e um peso nas costas que se notava a distância.  
     Era 4 de julho e nesse dia eu o observei com muita atenção. Sentou no ponto de ônibus com seu jeito tímido, envergonhado da sua situação, de cabeça baixa deu um trago em seu Velho Barreiro, olhou para o lado e perguntou, com cara de dúvida, pra uma senhora de aproximadamente 60 anos, cabelos pretos manchados de branco, vestido longo e sacolas de supermercado nas mãos, que esperava pelo ônibus:
     ― A senhora quer morrer? Tem vontade de morrer?

     A velha, com cara de espantada o olhou se afastando e dizendo que não, não queria morrer.
     Após alguns minutos de silêncio e mais um trago na cachaça, ele volta a dizer:
     ― A vida é boa demais, não é? Pensa bem moça... As pessoas reclamam, reclamam sempre, mas se a vida fosse tão ruim assim... todos iam querer morrer, o tempo todo!
     A tal moça não deu atenção. Com medo, subiu no primeiro ônibus. Eu me aproximei, puxei assunto e depois de 10 minutos de conversa ele desabafou:
     Seu Erivaldo foi taxista por 22 anos, após sofrer um acidente de carro, perdeu a mão direita e em seguida o emprego e a família. Por mais que tentasse, não conseguiu trabalho 'ninguém quer um deficiente'. Às vezes até consegue alguma coisa, paga pouco e não tem registro, mas como ele mesmo diz, é melhor que nada. Teve que vender a casa pra pagar os tratamentos de recuperação da mão, mora em quartos de pensão, isso quando consegue pagar... sua prioridade é alimento, bebida sempre têm um pra dar, mas comida não. Seu dinheiro é para o alimento. Acorda às 5 da manhã todos os dias, com esperança em conseguir algo novo. Tenta de tudo, cortar grama, vender bala,ainda manda currículos e tem como meta; juntar dinheiro, comprar um carro e voltar a taxiar as pessoas, ganhar a vida do seu jeito. 
     Após contar sua vida me olhou nos olhos com tamanha tristeza no olhar e um sorriso na boca, deu outro trago na cachaça e disse que precisava ir...
      Uma pessoa normal que por uma infelicidade da vida é visto como mendigo, é desprezado, anda largado e mesmo assim, agora, 8 anos após o acidente, sem conseguir nada e perdendo o pouco que tem a cada dia mais, praticamente morando na rua, Seu Erivaldo, aleijado, abandonado pelo Estado e desempregado... Disse sonhar, ter esperanças, disse ainda que a vida é boa demais, minutos antes de atravessar a rua sem olhar e bater contra o para-brisa de um ônibus estilhaçando o vidro e eu a assistir o seu corpo a rolar, desfigurar-se no asfalto. A multidão fechou, a cena sumiu, Não pude olhar, virei as costas e procurei por onde ir.

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