Meu Avô

     Outro dia me apertou o peito a saudade. Não sabia mais onde estava e como estava. Devo ter retrocedido mais ou menos 10 ou 15 anos. Aquela criança boba, acostumada ao avô que todos os dias estava lá. Essa minha saudade, que vira e meche me acompanha, me apertou o peito a ponto de me levar a viajar.
     Sentei-me no meio da garagem, com meus carrinhos de brinquedo, como de costume. Tão pequeno, chinelo nos pés e aquela bermudinha azul, andando de um lado ao outro com as mãos no chão empurrando o carrinho, enquanto fazia sons com a boca, os joelhos no chão e qualquer choro ainda seria um sorriso, se fosse hoje. Ali me cansava, ali me ralava e ali ele me olhava. Aquele velhinho, com seu chapéu de palha, bermuda jeans, camisa de seda branca, sempre aberta, mostrando seu peito forte de trabalhador de roça e picando fumo que logo em seguida enrolava n'uma palha seca e ficava um bom tempo ali, fumando seu cigarrinho de palha e dizendo coisas que me faziam rir, do outro lado da garagem.
     Essa minha infância... Esse meu avô... Como me faz falta!
     Me fazia artesanato com folhas de coqueiro. Outro dia chegou em casa com muitas folhas de coqueiro para fazer artesanato, tentou por horas me ensinar. Até que aprendi a fazer uma sanfona, mas nada além disso. Sonhei em fazer uma enorme, mas as folhas nunca chegaram a ficar no tamanho que eu esperava. Aquela que ele me fez eu guardei por anos, secou, mas continuou guardada, então mofou.
     Outro dia foi assim. Algumas lembranças, muitas lembranças, por sinal. Sei que nada faz voltar, mas foi satisfatório saber que vivi tais momentos e, apesar do tempo, aquele tempo não foi perdido. Foi satisfatório saber que trago em mim momentos bons dele, mesmo que há saudade, há boas lembranças. Se ele soubesse o quanto sou grato, meu avô, o único, mesmo que me acompanhe a saudade, me faz viajar e sentir perto o bastante para me pegar rindo só, no peito sem saber onde e como estou, mas estou a lembrar do meu avô.

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